País precisa de um projeto olímpico
A FOLHA procurou especialistas para avaliarem como o Brasil deveria se preparar para os Jogos de 2012 e 2016, tendo por base o desempenho em Pequim, quando terminou na 23 colocação no geral. Em Atenas-2004, competindo com uma delegação menor, foi o 16º colocado, com cinco ouros (confira o comparativo no infográfico).
Para responder a essas questões foram ouvidos os professores Luiz Cláudio Stanganelli e Antônio Carlos Gomes. Stanganelli é o diretor do Centro de Excelência no Esporte (Cenesp), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), pelo qual passam atletas de seleções brasileiras, enquanto Gomes é consultor com doutorado em treinamento esportivo na Rússia. Nos últimos anos esteve à frente do Atlético-PR, como diretor técnico-científico do clube.
FOLHA: O fracasso do Brasil em algumas modalidades em Pequim não pode ser creditado só aos atletas. O que mais faltou?
Gomes: Não foi um fracasso a participação. Os resultados em Pequim são decorrentes da política desportiva inexistente no Brasil. Com raríssima exceção, os resultados são trabalhos isolados com apoio da sociedade, mas sem grande comprometimento dos órgãos oficiais desportivos, como o Ministério dos Esportes, Comitê Olímpico e outras instituições. No Brasil existe estrutura física, que com um pouco de melhora pode ser muito útil para se formar um campeão. O maior problema, na minha ótica, está na falta de um projeto olímpico. Precisamos melhorar os recursos humanos, maior integração de áreas científicas, ter centros desportivos específicos em diversas regiões do País e buscar os pesquisadores nas universidades para se integrarem às comissões técnicas.
FOLHA: Qual avaliação o sr. faz sobre o desempenho de alguns atletas que eram cotados a ganhar medalha como de Jadel Gregório, Diogo Hypólito, Daiane dos Santos, Jade Barbosa e Fabiana Murer?
Gomes: O esporte de alto nível sempre apresenta surpresas, exatamente por não ser uma ciência exata. Em alguns atletas brasileiros notamos uma preparação física e técnica de excelência, mas pecamos na preparação emocional, pois o fator psicológico é determinante no resultado desportivo. Ainda somos um país que envia nossos atletas ao Jogos e ficamos à espera de milagres. O talento desportivo de nossos atletas é evidenciado a todo tempo, mas só isso não garante medalhas de ouro. Precisamos melhorar o apoio para ter maior êxito.
FOLHA: Tendo em vista o investimento feito pelo governo federal nos últimos quatro anos, visando o Pan do Rio e a Olimpíada (R$ 1,2 milhão), o sr. acha que o retorno em Pequim foi satisfatório?
Gomes: Um país que pensa em participar efetivamente de Jogos Olímpicos, precisa se estruturar 8 a 10 anos antes. Ao se pensar nos Jogos de 2016 estamos falando de dois ciclos olímpicos. Temos oito anos para tornar os nossos jovens hoje com 14 a 16 anos em campeões olímpicos, mas já estamos atrasados para tomar as providências necessárias. Primeiramente, precisamos criar na nossa cultura o espírito olímpico, com divulgação de programas sérios de educação sobre o esporte de rendimento. Por outro lado, isso só é possível se o governo apresentar um plano olímpico bem estruturado e discutido com as universidades, imprensa, federações, confederações e ligas.
FOLHA: Falando de massificação dos esportes, o que o País deveria fazer para formar mais atletas?
Stanganelli: Acredito que antes de formar atletas, devemos oportunizar a prática esportiva em todas as camadas sociais. Seria importante que todas as crianças e jovens do País tivessem a chance de praticar as diversas modalidades para aprender com esta prática, primeiramente os aspectos relacionados à sociabilização, saúde, respeito às regras, companheirismo, etc. Posteriormente, aqueles com mais aptidão devem ser encaminhados para uma prática sistemática voltada para o alto rendimento.
FOLHA: Quantos anos se leva em média para formar um medalhista olímpico?
Stanganelli: Isso depende da modalidade esportiva. Algumas meninas da ginástica artística ganharam medalhas em Pequim com 16 anos. Uma nadadora americana com 41 anos ganhou três medalhas. A maratonista que foi campeã em Pequim tem 38 anos. No geral, a literatura revela que a maturação do atleta de alto rendimento ocorre entre 24 e 26 anos, o que envolve os aspectos emocionais, técnicos, táticos e físicos. Isso significa que nesta idade estes atletas estão melhor preparados para enfrentar os desafios de uma competição como essa. Só para relembrar, o levantador da seleção masculina de vôlei dos Estados Unidos (Ball) tem 36 anos e jogou muito. Hoje em dia, a qualidade dos treinamentos e os processos de recuperação utilizados nos atletas de alto rendimento parecem prolongar o período competitivo destes atletas.





