Agência Estado
De São Paulo e BH
Quando vão reconhecer o meu trabalho? Quando vão pelo menos dar tranquilidade para eu trabalhar? Quando vão acabar as cobranças descabidas? O técnico Oswaldo de Oliveira, 49 anos, vive a segunda decisão no primeiro ano de sua carreira-solo muito desgastado e até desiludido por não encontrar respostas para estas questões. Ele desabafou.
‘‘Há um ano atrás eu nem sonhava em me tornar treinador; cheguei desconhecido ao Corinthians, sem história, e era natural que a torcida e até os jogadores desconfiassem do meu trabalho’’, relembra. ‘‘Apesar disso, provei com resultados, já que fui campeão paulista e estou na final do Brasileiro com uma campanha irrepreensível; nem assim, amainaram as críticas: detesto advogar em causa própria, mas acho que mereço o reconhecimento’’, disse.
Oswaldo não tem explicações para o descrédito. ‘‘É como se eu olhasse todo dia num caleidoscópio, procurando uma explicação, mas acho que eu não a encontraria nem se eu ficasse mais 300 anos no futebol.’’ O treinador pelo menos arrisca um motivo para a resistência ao seu trabalho: ‘‘As pessoas não admitem que um desconhecido esteja ocupando o espaço que eu ocupo.’’ O meia Marcelinho Carioca, um dos seus maiores fãs, concorda: ‘‘O comando no Corinthians provoca muito ciúmes; nós o respeitamos muito, ele é nosso comandante e tem toda a autoridade.’’
O desgaste que representa dirigir o Corinthians já fez Oswaldo pensar em largar tudo. ‘‘É muita coisa para gerenciar; diretoria, jogadores, torcida e imprensa, além dos adversários.’’ A vida pessoal do treinador foi completamente invadida. ‘‘Tive de sacrificar a minha privacidade e sinto falta de um maior convívio com a família.’’
Num momento de tensão e decisão como este, Oswaldo ouve música e faz palavras cruzadas para relaxar. ‘‘Gosto de música instrumental, jazz; trouxe para Atibaia umas quatro ou cinco fitas, daquelas prediletas, para passar o tempo.’’
Humberto – Entre pendurar as chuteiras como jogador e voltar ao Atlético Mineiro para trabalhar como supervisor e, em seguida, como técnico, Humberto Ramos aprendeu a lidar com o público e, principalmente, com funcionários. Foi corretor de imóveis, trabalhou em uma empresa que vendia jóias por atacado e montou sua própria firma de recrutamento e seleção de pessoal – a HR Recursos Humanos. Fazia locação de mão-de-obra e avaliação psicológica dos trabalhadores que estavam sendo contratados por outras companhias.
A formação teórica de Humberto Ramos encaixou-se perfeitamente com o momento conturbado que o Atlético viveu nas rodadas finais da primeira fase do Campeonato Brasileiro. O time estava entrosado, bem armado, mas com alguns resultados ruins perdeu a confiança. O presidente do clube, Nélio Brandt, decidiu demitir o técnico Dario Pereyra, responsável por toda a formação da equipe, e colocou Humberto Ramos para motivar o elenco.
O técnico nunca tinha comandado um treino. O Atlético precisava vencer o Grêmio na última rodada para se classificar. Com simplicidade, Humberto apelou para a sua especialidade, a psicologia. Com a ajuda do auxiliar José Maria Pena, promoveu uma única mudança na equipe, colocando o volante Bruno para jogar como lateral-direito, como pedia a torcida. ‘‘Falei que aquela partida contra o Grêmio era o jogo da nossa vida’’, relembra Humberto.
O time derrotou a equipe gaúcha e não parou mais de crescer. Passou por Cruzeiro e Vitória, revertendo a vantagem dos adversários, e já derrotou o Corinthians na primeira partida decisiva. ‘‘Ele pegou o time em um momento decisivo e contagiou todo mundo’’, destaca o experiente Gallo, capitão da equipe.
É na conversa íntima com os jogadores que Humberto Ramos aposta no sucesso do Atlético no desafio contra o Corinthians. Desde que se classificou para a final do Campeonato Brasileiro, o time mineiro não treinou mais jogadas ensaiadas de cobrança de falta ou escanteio.
O técnico Humberto Ramos preferiu dedicar o tempo para palestras, conversas, rachões e treinos coletivos. Para motivar os jogadores, usa a si próprio como exemplo. ‘‘Sou o referencial do time’’, diz o homem que fez o cruzamento para Dario marcar o gol do título brasileiro de 1971. ‘‘Sei mais do que ninguém qual é a satisfação de ser campeão.’’

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