Paulo Briguet
Em algum momento da partida, descobri que o futebol é a imagem. Haverá o cheiro das bandeiras queimadas, o gosto da cerveja morna, a dor da pancada no joelho direito, o barulho eterno da torcida em refrão – mas a bola tem o seu habitat natural no mundo das coisas visíveis.
Com estes olhos que o gramado há de comer, leitor, vi a pelota mais leve que o ar, em trajetória curvilínea desenhada pelos pés ronaldinhos.
Peixe-bola, teu destino é a rede – pescaria mais festejada não há. O craque domina a arte de construir belas imagens – uma idéia na cabeça e uma bola no pé. Na alma do artilheiro, mora um cineasta-pescador.
Por isso (pela lembrança dos bons momentos), todos urram e xingam e vaiam quando a bola insiste em rotas perdidas, bobagens no meio-campo, cruzamentos estéreis, pipocadas ociosas, passes natimortos, chutes para lugar nenhum, lançamentos para o Zé Ninguém. Os olhos da torcida querem a bola viva e redonda, não falecida e murcha.
Como sabem os moleques que vão pela primeira vez ao estádio, a vida não tem replay (‘‘Pai, eu não vi o gol!’’). Só mais tarde os pequenos torcedores irão saber que o verdadeiro VT (o mais exato, o mais preciso, o mais intenso) é a memória. Nela, arquivamos a seleção dos grandes lances. Cada um de nós tem o seu Canal 100 particular, aquele filminho que passará quando estivermos agonizando. O futebol é a imagem; o tira-teima é o pensamento.
Alguém nos ajudará nessa eterna procura pela bola redonda? Sim: à beira do gramado, entre gandulas, bandeirinhas, luxas, repórteres da Globo, reservas e anúncios da Traffic, vigia um ser impertinente chamado fotógrafo. Em condições anormais de temperatura e pressão, sob o Sol da tarde e o vento das arquibancadas, o fotógrafo cumpre missão impossível. Com a sabedoria do clic, ele tenta congelar a visão o futebol dentro de retângulos e quadrados de luz – em direção ao tempo eterno.
Nos quatro cantos da vida pré-olímpica, há sempre o olho de vidro da câmera. Cinco rodadas seriam suficientes para encher um jornal inteiro de belas fotos. Mas – como o papel é caro e o tempo do leitor, precioso – enchemos apenas esta página.
E você verá que assim caminha o futebol: daqui a 50 anos, o velho craque contemplará sua própria imagem retida no tempo para dizer: ‘‘Foi bom’’. Luxa irá conversar para sempre com as bolas, na tentativa de arrancar-lhes os segredos. No futuro, como hoje, para fazer um omelete será preciso quebrar ovos: nunca existirá jogador que passe o aniversário sem receber gema, clara e farinha na cabeça. Eternamente furiosa na arquibancada, a torcida destilará seu ódio-amor. No vestibular, um candidato com a camisa da Seleção dormirá sobre o gabarito, talvez sonhando com disputada partida no barzinho de ontem. Um Cristo-torcedor surgirá no alambrado. Um hermano latino gritará seu fanatismo, igual ao nosso, exceto por ser formulado em castelhano. A morena emprestará sua beleza às cores do Brasil. A vida e a bola irão rolar até 45 minutos do segundo tempo. E os nossos olhos, leitor, o gramado há de comer.
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O futebol é
a imagem; o
tira-teima é
o pensamento


Cesar AugustoMOMENTO DE ALEGRIARonaldinho, depois de colocar o peixe-bola na rede. Daqui a 50 anos, o craque poderá dizer: ‘‘Foi bom’’Mario CesarFURIOSAA torcida de Londrina na arquibancada do Café: ódio-amor a serviço do espetáculoMario CesarOMELETENunca haverá jogador aniversariante sem receber ovo e farinhaPaulo WolfgangO EQUILIBRISTATorcedor em pose de Cristo observa o jogo em seu camarote, o alambradoMilton DoriaPAIXÃO NACIONALDurante o treino da Seleção, a morena empresta sua beleza às cores do Brasil e garante o show de bolaMario CesarCARA PINTADAA imagem do futebol no próprio rostoMilton DóriaQUAL SEU SEGREDO?Luxa trava diálogo com a bolaMilton DóriaSÓ ALEGRIAContra a Colômbia sobraram oportunidades para inventar comemoraçõesPaulo WolfgangSELEÇÃOVestibulando cochila sobre o gabarito: sonhando com a classificação?Cesar AugustoHERMANOVisitante latino-americano vibra: paixão futebolística em castelhano

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