Os mais discretos felizardos da seleção
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sábado, 15 de abril de 2006
Fellipe Awi<br> Agência O Globo 
Rio de Janeiro - O mais importante eles conseguiram: foram lembrados pelo técnico da seleção brasileira. Mas tornaram-se sérios candidatos ao esquecimento do torcedor. Por mais que uma Copa do Mundo seja capaz de eternizar seus participantes há aqueles que desafiam a memória do brasileiro justamente porque sua participação na festa ficou praticamente restrita ao consumo interno.
Em seus 18 Mundiais, a seleção brasileira contou com jogadores a quem foi destinada pouca evidência para mídia e torcedores. Os motivos são óbvios: eles não entraram em campo em nenhum jogo. Fazem parte da delegação, treinam todos os dias, mas não saboreiam o melhor da festa. ''Ir a uma Copa do Mundo é importante, sem dúvida, mas é inegável a frustração por não jogar. É como se o nosso sonho ficasse incompleto'', define o ex-zagueiro André Cruz, reserva de Júnior Baiano e Aldair na Copa do Mundo de 1998.
André Cruz chegou a sonhar com uma sorte melhor quando o Brasil se classificou por antecipação para as oitavas-de-final. No jogo contra a Noruega, que nada valia, Zagallo lançaria alguns reservas, mas o zagueiro não pôde jogar porque teve uma contratura na coxa na véspera. Também ficou fora seu companheiro Doriva, atualmente destaque no Middlesbrough, mas que quase sempre é esquecido entre os vice-campeões mundiais.
Uma lesão também atrapalhou a vida de Baldocchi, talvez o menos badalado dos tricampeões mundiais em 70. Titular com João Saldanha, o então zagueiro do Palmeiras se machucou num jogo com a Argentina e, durante sua recuperação, Zagallo assumiu a equipe. Baldocchi foi convocado, mas não teve chances durante todo o Mundial. ''Não tenho mágoa de ninguém, mas é claro que gostaria de jogar. Eu me sinto tricampeão perante meus amigos de seleção, até porque eles sabem que eu tinha condições de contribuir'', diz ele, hoje dono de uma madeireira em Batatais, interior de São Paulo.
Baldocchi ainda tem na memória os desgastantes treinamentos para se adaptar à altitude do México, mas nem sempre o jogador vai só para treinar. Reserva de Oscar e Luisinho na Copa da Espanha, Juninho conta que, embora não tenha jogado, sua participação nos bastidores da seleção foi importante. Extrovertido e brincalhão, o ex-zagueiro da Ponte Preta, 47 anos, se orgulha do papel de motivador no meio de um grupo tão talentoso quanto o de 82: ''Fiquei feliz quando ouvi o Sócrates, o Falcão e o Zico falarem que eu era um estimulador para o time, brincando muito e descontraindo o ambiente. Eu fazia isso para não ser rejeitado. Acho que fiz a minha parte''.
Juninho sabia que tinha poucas chances de jogar, mas conta que treinava com tanto afinco que chegou a ser o melhor nos treinos físicos. Apesar do esforço, só ficou no banco na fatídica partida contra a Itália, de onde assistiu de perto aos três gols de Paolo Rossi.
Coadjuvantes Se o esforço nem sempre é recompensado, é verdade também que uma Copa obriga jogadores consagrados em seus clubes a virarem coadjuvantes na seleção. Ídolo de Flamengo e Vasco, Tita passou praticamente despercebido na Copa de 90. Nem na polêmica briga por causa dos patrocinadores se manifestou. Parecia querer desfrutar uma Copa de qualquer jeito, depois de ficar fora das duas anteriores por caprichos pessoais. Na sombra da seleção, ganhou a companhia do garoto Bismarck, então com 21 anos, convocado como a aposta de Lazaroni para o Mundial. Ficou só na aposta.
Nesta briga contra o esquecimento, os goleiros reservas são presas fáceis. Tomar a vaga do titular só para sortudos como o argentino Goycochea, em 1990. Paulo Victor sabia disso na Copa do México, em 1986. Limitou-se a se revezar na reserva com Leão. Era o ex-goleiro tricolor quem estava no banco na derrota para a França, nos pênaltis. A tristeza não apagou a emoção: ''Eu me sinto realizado como jogador porque fui ao Mundial. Frustração só existe para quem não vai a uma Copa''.


