São Paulo - Ricardo Trade é o principal executivo do Comitê Organizador Local (COL) da Copa de 2014, que tem carta branca da Fifa para tocar todos os projetos do torneio no Brasil e garantir que não haja falhas. Ele comanda uma equipe de 248 pessoas e reconhece que muitos dos problemas operacionais que ocorreram na Copa das Confederações derivaram de entregas tardias. Nesta entrevista exclusiva, ele garante estar totalmente focado em realizar o Mundial e revela que o fato de o COL ter dinheiro suficiente para cobrir todos os gastos facilita seu trabalho na coordenação.

Nessa fase de preparação, a oito meses da Copa, o que é mais importante?
Tudo. A gente está numa fase onde, internamente, nós estamos no planejamento operacional novamente, como fizemos para a Copa das Confederações, mas agora ampliando para as 12 sedes. Por exemplo: a escolha dos times que nós vamos contratar em cada uma das sedes, as nossas compras, os seguranças para o ano que vem, os aviões que vão servir às delegações... Toda essa preparação administrativa que o COL tem de ter, como ter três propostas para comprar algo, ir para o mercado, ser aprovado. Isso tudo leva um tempo.

Com os estádios prontos, vocês vão fazer testes finais?
Isso. A partir de janeiro, já com as equipes que a gente vai contratar, eu começo a poder acompanhar os jogos que vão ter nas cidades. Mas não é evento-teste ainda, são eventos que eles vão realizar, para campeonato de Cuiabá, do Amazonas, Gaúcho seja qual for. Então, nossas equipes já começam a se integrar, pois vamos entrar dentro dos estádios. Hoje elas trabalham nas secretarias da Copa de cada Estado, mas em fevereiro a gente muda para dentro do estádio, e a partir daí a gente vai evoluindo para fazer simulações dentro do nosso planejamento operacional.

A entrega dos estádios realmente não é uma preocupação?
Os estádios vão ser entregues em dezembro, nós temos uma equipe de engenheiros e arquitetos que afirma isso, não sou eu que estou dizendo. Claro que serão entregues com algumas nuances para finalizar em janeiro, para ter um jogo no final de janeiro, como a arquibancada móvel daqui de São Paulo, mas isso aí não tem problema. O campo está pronto, a luz está pronta, a cobertura está pronta, as cadeiras estão instaladas e, com certeza, tudo isso estará pronto em dezembro.

Em algum momento você achou que não ia dar tempo?
Eu não. Mas sou muito positivo, é meu jeito de ser. E outra coisa é que acredito nas pessoas, minha história de vida é assim. Faço isso e não me decepcionei até hoje. Então, quando o governador Eduardo Campos (de Pernambuco) falou para mim "vou entregar o estádio para a Copa das Confederações" e disse que ia levar para lá toda a estrutura que faltava como gás, luz e água naquela região que precisa de tudo novo, ele fez. O mesmo caso de Brasília: o Agnelo Queiroz (governador do Distrito Federal) falou "pode ficar tranquilo que vou entregar". Eu acreditei e não duvidei em nenhum momento.

Existe algum gargalho nesse momento?
Não, e digo assim: é cansativo, porque é dia a dia, é muita coisa, é muita responsabilidade, e falei aqui de várias compras que a gente tem de fazer. Mas a gente tem equipe e isso facilita muito. Hoje nós somos 248 pessoas e vamos chegar a 380, fora o que a gente contrata para serviço temporário. Não tenho uma preocupação grande na minha cola, pois tenho o recurso para fazer. Para mim, como gestor de um Comitê Organizador, e eu já trabalhei em outros, posso dizer que é uma tranquilidade. Tenho tudo o que preciso dos meus serviços para comprar. Se preciso de oito aviões para 2014, tenho orçamento para isso (o orçamento do COL é de R$ 896 milhões, repassados pela Fifa); se preciso de motoristas, eu tenho; se preciso dos guarda-costas, eu tenho orçamento privado para isso, dinheiro que vem da Fifa, e ele está acordado e certinho para cobrir o que preciso. Então, melhor tranquilidade não tem.

Existe um temor com as manifestações durante o torneio?
Acho que elas têm de existir, são democráticas, refletem os anseios legítimos da população, desde que não haja violência ou depredações. Na Copa das Confederações foi uma surpresa para a gente que aquilo ocorresse e acabaram usando a imagem do torneio para aumentar o alcance dos protestos. A nossa preocupação é uma só. O governo federal tem assinado as garantias de que vai dar a segurança necessária, como ele fez na Copa das Confederações. A função é garantir que o jogo vai acontecer, que vai continuar o direito de ir e vir sendo preservado e que os atletas e torcedores vão chegar ao estádio. Se ocorrerem manifestações, as mesmas garantias serão dadas pelos Estados e municípios. Essa é a nossa tranquilidade, pois o nosso papel é lá dentro do estádio, de manter aquele clima bacana, independentemente das manifestações lá fora em algum momento se tornarem agressivas.

Voltando ao assunto dos estádios, como está a situação das estruturas complementares?
Tem coisa que não é provisória. Por exemplo, em Fortaleza nós usamos o prédio da Secretaria de Esportes do lado para complementar o que falta. O Mineirinho vai ser usado para complementar, assim como o Maracanãzinho. Algumas coisas têm de ser construídas, cabeamento passados, e outras vamos usar o que já tem.

O que te parece essa ação do Ministério Público, que fala que as estruturas temporárias não podem ser pagas com dinheiro público porque não ficarão como legado para a população?
Nós não fomos citados ainda, como COL, então não posso comentar. Na outra ação também não recebemos por escrito, mas as cidades disseram que receberam uma orientação de não prosseguir com a compra para 2014. Aí depende de cada Estado, tem Ministério Público, eles têm de respeitar. Eles têm as regras deles lá e tem o contrato deles dizendo que essas estruturas são obrigação deles. A gente está aguardando, eles é que têm de discutir com o Ministério Público. Não é uma coisa nossa.

Isso pode caracterizar uma quebra de contrato com a Fifa?
Eu deixo o jurídico para comentar isso. Na verdade, nós não podemos dizer isso friamente, primeiro porque não fui citado, segundo é que as cidades é que têm de dizer isso. Eu só posso te dizer que existe um contrato que diz que elas são responsáveis por isso.

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