Oportunidades de ouro
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sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Rafael Fantin<br>Reportagem local 

O técnico Rogério Micale entrou para a história do futebol nacional no dia 20 de agosto de 2016, quando o Brasil venceu a Alemanha no Maracanã e ficou com a inédita medalha de ouro. Depois de 1 a 1 no tempo normal, a conquista veio na cobrança de pênaltis e coube ao craque Neymar o chute definitivo, que exorcizou os fantasmas de tantas decepções olímpicos do País do Futebol.
O treinador, antes desconhecido do grande público, se tornou o único técnico brasileiro com a medalha dourada e coroou sua carreira vitoriosa com equipes de base, trabalhando na descoberta de novos craques. A trajetória de Micale é tema do livro "Quando oportunidades se transformam em ouro" do escritor londrinense Alexandre Morango, teólogo e psicólogo do Esporte, amigo pessoal do treinador que acompanhou a seleção na Rio-2016.
Na publicação, que será lançada na próxima quinta-feira (5) a partir das 18h30 na Livraria da Vila, no Shopping Aurora, o escritor faz um paralelo entre a história inspiradora do ouro e as oportunidades que surgem no cotidiano. Motivação, reflexões e espiritualidade são temas abordados no livro da OutSide Editora.
"O Micale é um cara muito reservado sobre as histórias que acontecem no vestiário e tem que ser mesmo. Conversando com ele, surgiu a ideia de fazer um livro sobre a conquista do ouro olímpico e a trajetória do treinador até lá como pano de fundo, mas que pudesse contribuir com a vida das pessoas", revelou.
O livro ainda recorda o início da carreira de Micale como treinador na Portuguesa Londrinense e como o técnico chegou até a seleção brasileira de base e estava pronto para assumir o time olímpico. "Quando o Dunga assumiu, veio com uma proposta extremamente técnica e profissional e o Rogério se destacava muito na base. A oportunidade apareceu e ele abraçou", lembrou.
Na seleção, Micale implantou um futebol mais ofensivo, que pode ser visto na Rio-2016, quando a equipe chegou a atuar até com quatro atacantes em busca do sonhado ouro. O escritor avalia que o sistema de jogo com características mais brasileiras foi importante para resgatar o "nosso jeito de jogar futebol". "Se a gente quiser absorver um jogo mais pragmático e burocrático, em busca do resultado, os alemães estão anos-luz da gente. Esse trabalho por uma identidade brasileira de jogar futebol acabou levando o Micale para seleção",avalia.
Na Copa América Centenária em 2016, a seleção principal foi eliminada na primeira fase após derrota para o Peru e Dunga, que seria o treinador na Rio-2016, acabou sendo demitido. "Toda a oportunidade vem acompanhada de outras tantas oportunidades. Algumas vezes, temos a impressão que uma chance está desvinculada de outras maiores, mas não necessariamente. O simples fato de estar ali e fazendo um bom trabalho no sub-20 gerou a confiança para que ele assumisse o time. Houve um conflito de agendas com a Copa América e o Micale ficou responsável por conduzir a preparação para Olimpíadas", comentou.
Tite foi chamado para o lugar de Dunga, mas preferiu não assumir a equipe olímpica e focar o trabalho no time principal que atravessava um momento conturbado nas Eliminatórias. "Quando o Micale recebeu a notícia, foi um sonho realizado. Mas, uma responsabilidade muito grande também. Primeiro, foi uma alegria e depois começou a sentir a pressão por ainda não ter um lastro midiático. Precisa ter coragem".
Na primeira fase, o treinador passou pelo momento mais difícil com dois empates contra África do Sul e Iraque, mas depois embalou na fase final. "Depois do título, ele (Micale) me disse que a primeira sensação foi de alívio por causa da responsabilidade. A ficha caiu só quando ele saiu nas ruas e começou a atender as pessoas que queriam tirar fotos", revelou.
No Maracanã lotado, a saga brasileira terminou com a conquista inédita depois de muito sofrimento. O Brasil saiu na frente com um golaço de falta de Neymar, mas os alemães empataram o jogo e a decisão foi para os pênaltis. A vitória não apagou da memória o traumático 7 a 1, mas resgatou o orgulho do futebol brasileiro, que hoje conta com muitos daqueles meninos na seleção principal, que irá buscar o hexa na Rússia. "Se a Alemanha vence, de novo, iria fazer muito mal para o futebol brasileiro porque a gente ia tentar ser alemão. Precisamos assumir a nossa forma de jogar, aprimorando questões táticas e técnicas, mas sem abrir mão da qualidade, do dom e do improviso".
Professor e 'parça' do Neymar
Ao assumir a seleção olímpica, o treinador Rogério Micale ainda teve que conviver com uma série de questionamentos sobre Neymar, craque e principal esperança da equipe. O desempenho no campo, o comportamento fora dele e o relacionamento com o novo técnico estavam na pauta da imprensa esportiva. Bombardeado pelas perguntas, Micale pediu calma e disse que queria conversar com Neymar, pessoalmente.
"Ele tinha muitas informações sobre o jogador, mas como você vai saber como é uma pessoa sem conviver? Quando eles se encontraram, começou uma amizade que dura até hoje", revelou o escritor Alexandre Morango.
Ele ainda lembrou que no último mês de agosto, quando completou um ano da conquista olímpica, Neymar concedeu várias entrevistas e, sempre, ressaltava a importância de Micale no comando da garotada. "Eu já presenciei o Neymar ligando na casa do Micale e falando pra ele: 'vem cá, professor'. O Neymar é um cara fantástico, que precisa ser respeitado", afirmou. (R.F)


