Opinião
Discussões sobre o que é ou não Patrimônio Histórico sempre esquentam as conversas em mesas de bar, corredores de empresas ou gabinetes da administração pública. A questão aqui é que o impasse do VGD envolve solicitações de reformas, acumuladas ao longo dos anos, que resultaram em sinal vermelho após aquele seis de dezembro do ano passado, quando o time do Coritiba viu seu estádio destruído pela torcida inconformada com o rebaixamento para a segunda divisão. Agora, engenheiros, fiscais e auditores que fazem vistorias em locais como este não querem mais deixar o problema ''desmoronar'' nas mãos deles. Se uma arquibancada ceder quem vai assumir a culpa? Se o alambrado que separa torcidas não resistir, quem evitará confrontos violentos?
Some isso tudo à visão estrábica dos mandantes esportivos da cidade e temos o resultado: Londrina está sem times nos campeonatos importantes e sem estádios para garantir espetáculos aos fãs do futebol.
É preciso preservar o patrimônio, planejar a cidade e modernizar o esporte. Tudo ao mesmo tempo. Temos diversos exemplos pelo país afora comprovando que o futebol tem que ser visto com negócio e gerenciado com responsabilidade. O maior exemplo talvez seja o São Paulo Futebol Clube, que tem contas equilibradas, um time que mantém torcedores/colaboradores fiéis e um estádio só dele que se garante não somente com partidas e campeonatos, mas com locação para shows e eventos.
A solução é privatizar estádios? Não é bem assim. Vejamos o exemplo do Maracanã, no Rio de Janeiro, que (boa parte da população desconhece) não pertence ao Flamengo, mas sim à administração pública. Ele dá lucro ou prejuízo? A questão não é esta. O fato é que ele se mantém por meio de locação e principalmente porque se transformou em algo mais que um estádio: é um museu do esporte, um local de visitação turística e símbolo para a comunidade.
Temos ainda um exemplo menor e não menos importante: o Estádio do Pacaembu, também público (pertence à prefeitura de São Paulo). Nos últimos dois anos, tem diminuído o prejuízo anual de R$ 1,3 milhão para R$ 700 mil, segundo informações do site da própria administração paulistana. Para o governo, é um ótimo negócio porque o local alcança as expectativas previstas que é receber grandes torcidas de grandes equipes de futebol e alegrar a população com uma paixão nacional. E com isso abocanha 12% da renda como valor de locação para manter a estrutura e o pagamento direto de 40 funcionários e de outros tantos terceirizados, totalizando 130 pessoas cuidando exclusivamente do ''imóvel''.
Quantos funcionários trabalham na manutenção do Estádio do Café? Apenas três. E do VGD? Nenhum. Houve planejamento para as duas grandes arenas do futebol londrinense? Há espaço para um museu digno dos tempos de conquistas, com os títulos paranaenses em 1962 (primeiro jogo da final foi no VGD lotado) e 1981 (no Café, com 45 mil pessoas), há estrutura para atrair torcedores fora dos jogos (uma academia, salão de jogos, recantos, espaço de lazer para crianças ou piscinas, como existem no anexo do Morumbi em São Paulo?). Não. O que vemos é abandono logístico, financeiro e afetivo por parte de todos os envolvidos.
* Emerson Dias/Especial para a FOLHA





