Para quem tem insônia, o período de 15/09 a 02/10 será um prato cheio: pela primeira vez desde que começaram a ter o status de grande evento pela mídia mundial, os Jogos Olímpicos serão disputados em horários nada convencionais – principalmente para quem está a leste do meridiano de Greenvich, onde o fuso horário é de mais de meio dia de atraso em relação à Austrália. Para os brasileiros, a diferença é de 14 horas, e quem quiser acompanhar com mais atenção as disputas terá que trocar o dia pela noite: as disputas vão acontecer das primeiras horas da noite até o começo da manhã seguinte.
O problema maior será para estudantes e trabalhadores em geral. Como acordar às três da madruga para assistir o futebol feminino? Para os adeptos do vôlei, tanto a seleção de Bernardinho quanto a de Radamés Lattari vão jogar depois das duas da madrugada. E para quem pensava naquele churrasquinho regado a samba e cerveja para acompanhar a seleção de garotos do Luxemburgo terá que rever seus planos. Além de jogar em dia de semana, a seleção masculina de futebol vai atuar sempre entre cinco e seis horas da madrugada. No máximo vai dar para reunir os amigos em um reforçado café da manhã.
De qualquer forma, a Olimpíada de Sydney será um bom teste para saber como o mundo – e o Brasil em particular – se portará na Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coréia, onde os jogos também serão madrugada adentro.
A Folha foi às ruas para saber como as pessoas pretendem acompanhar nossos atletas na Austrália. Resultado: a maioria garante que vai pipocar diante do horário inusitado das disputas. Resumos de telejornais e programas esportivos serão os mais vistos.
O vendedor Fabio Gonzaga, 20 anos, por exemplo, disse que gosta muito de esporte e sempre que pôde assistiu às competições das Olimpíadas passadas. Porém, neste ano, ele não garante o mesmo prestígio.
– Acordar de madrugada para assistir aos jogos não será tarefa fácil - diz Gonzaga.
Simpatizante de judô, vôlei e futebol, o vendedor afirma que vai acompanhar apenas os resultados.
– Vou ver o resumo na TV e ler os jornais; madrugar e ficar com sono durante o trabalho não vai dar - justifica Gonzaga.
Para o cabeleireiro Dirceu da Silva, 41 anos, passa longe a idéia de acordar de madrugada para ver as disputas.
– E o dia seguinte, como fica? - indaga Dirceu. Não dá para cortar cabelo dos clientes com sono e, como a imprensa vai cobrir o evento, vou deixar o trabalho para vocês e acompanhar o resumo depois - acrescenta.
O comerciante Ricard Doi, 50 anos, sempre abriu seu restaurante no bairro Juvevê, em Curitiba, para os clientes assistirem aos jogos de futebol. Como as competições serão de madrugada, desta vez ele não ficará com o estabelecimento aberto. E já contabiliza prejuízo:
– Quando o jogo acontece de tarde ou à noite o torcedor vem até aqui, assiste às partidas e gasta um pouco - diz Doi. Este ano o horário da Olimpíada prejudicou o torcedor e o comércio - ele lamenta.
O técnico em mecânica Julsen Rios, 46 anos, é categórico:
– Não vou madrugar nem que me paguem - dispara. Só gosto de futebol. E às seis da manhã, definitivamente, não é hora de tomar aquela cervejinha na frente da televisão - explica. Afinal, meu patrão não vai gostar nem um pouco que eu chegue tarde por causa da seleção - ele brinca.
A estudante de segundo grau Fernanda Cristina Mileck, 16 anos, também não pretende levantar de madruugada para assistir aos jogos.
– O que acontecer até as duas horas dá para ver - acredita Cristina. E, nos dias em que eu voltar de uma noitada, até fico acordada para ver algum jogo - ela rende-se.
A prima dela, a estudante Emanuelle Mileck, 15 anos, gosta de basquete. Mas não a ponto de ficar acordada até tarde.
– Prefiro assistir ao resumo depois - define-se.
Já a colega delas, Priscila Soares, 16 anos, disse que vai assistir às provas de natação, mas acha que não conseguirá continuar acordada para ver as seleções feminina e masculina de futebol.
– Se o time for bem, nas finais até acordo, mas no começo não vai dar - condiciona Priscila.
Uma das exceções é a também estudante Liane Fortes, 16 anos. Ela revela que vai programar o despertador para acordá-la na madrugada.
– Vale a pena, Olimpíada é só uma vez a cada quatro anos.
Porém, como tem televisão no quarto, Liane teme que acabe dormindo durante as transmissões.
– A cama quentinha, tudo escuro lá fora... Não vai ser fácil aguentar - diz ela.

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