São Paulo - A figura do velhinho com olhos clínicos para descobrir talentos para os grandes clubes do futebol acabou. Os olheiros continuam tentando encontrar novos Robinhos e Kakás. Agora a serviço de empresários endinheirados que vasculham torneios amadores ao redor do País em busca da jóia rara.
''Esquece esse negócio de olheiro de clubes, rapaz. Está em extinção. Os empresários tomaram conta desse campo. Tem clube que vive basicamente de indicações de agentes, mesmo nas categorias de base. Nem se dão ao trabalho de procurar mais'', afirma Francisco Lopes, ex-diretor do Santos e que atualmente trabalha para Jorge Mendes, português que cuida das carreiras de Cristiano Ronaldo, Anderson (ambos do Manchester United) e do técnico José Mourinho (Internazionale).
O esquema é profissional. E a briga, ferrenha. As equipes tentam de todas as formas proteger seus atletas. Sem muito sucesso. ''Você não sabe o que aparece de gente ligada a empresários a cada jogo do nosso time. É duro proteger os meninos'', reclama Francisco Carlos Vigorito, dirigente das categorias de base da Ponte Preta, de Campinas.
Os principais agentes do Brasil possuem redes de olheiros espalhados pelo País. Todos bem remunerados. O salário chega a R$ 15 mil por mês, valor que pode aumentar de acordo com talentos descobertos. Cada funcionário possui informantes que viajam por torneios amadores no Interior. Ganham porcentagens quando um atleta é contratado.
''Não tenha dúvida de que a estrutura de olheiro dessas pessoas é superior a de quase todos os grandes clubes do Brasil. Não conheço nenhum time que tenha rede tão ampla. Pode ter certeza que se tem um torneio acontecendo, há sempre gente dos grandes empresários vendo'', diz Ricardo Crivelli, 43 anos, há 20 fazendo observações. Hoje para a Traffic, empresa de marketing que também administra a carreira de atletas.
Juan Figer, o papa dos empresários, possui um funcionário só para analisar talentos. É o ex-ponta-direita Camargo, que fez parte do elenco do Santos vice-campeão brasileiro de 83. Ele assiste DVDs e recebe indicações de outros olheiros. E de procuradores da rede de pequenos empresários de Figer.
''Eu mesmo faço a observação dos atletas. Deixo bem claro ao garoto o que posso oferecer. No final de tudo, quem escolhe é o próprio jogador. Existe muita concorrência, nem sempre leal. Não compro confiança de ninguém'', explica Giuseppe Dioguardi, empresário que atua no mercado do Leste Europeu.
O Palmeiras ensaia o primeiro passo para reagir. O gerente de futebol Toninho Cecílio tenta montar uma rede de informantes com ex-jogadores do clube. Eles ficariam encarregados de analisar e descobrir novos atletas. Mas o plano ainda não foi posto em prática. Ou seja, a bola ainda é dos agentes.

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