OLHA O CELULARRR!
Paulo Briguet
‘‘Sou do tempo em que os telefones eram pretos e as geladeiras eram brancas.’’
(Rubem Braga)
O celular é um instrumento polêmico. Até alguns anos atrás, ele parecia inacessível, privilégio de uma casta poderosíssima. Com a sua recente popularização, houve uma série de benefícios óbvios, cuja menção deixarei para as empresas do setor. Mas estava certo quem disse que a tecnologia resolve problemas antigos para criar novos. E surgiu a questão das boas maneiras com o celular.
Novos recursos materiais geram códigos de posturas. Muitos equipamentos inventados produzem uma ética (e sua irmã mais nova e enjoada, a etiqueta). Quer exemplos? 1) Inventaram o barco. Com o tempo, os marinheiros passaram a obedecer a uma ética dos mares: cumprimentam, orientam e ajudam os companheiros de outras embarcações. 2) Inventaram o automóvel. Os motoristas hoje são obrigados a parar no sinal vermelho, deixar a velhinha atravessar a rua e respeitar a faixa. 3) Inventaram o telefone (aquele antigo). Você tem que dizer alô, quer deixar recado?, quem quer falar? e desculpe, foi engano. 4) Até a Internet já tem suas boas maneiras.
Pode-se argumentar que essas regras não são cumpridas por todos. E é verdade. Por isso há os piratas, os marinheiros de primeira viagem, os barbeiros, os assassinos do trânsito, os hackers, os especialistas em trotes e aqueles sujeitos que desligam na sua cara sem dizer tchau. Mas é justamente a observação dos princípios que define onde acaba a terra da ninguém e começa a civilização.
Invento relativamente novo, o celular, porém, já definiu regras básicas. É preciso desligá-lo e evitar seu toque impertinente nos locais em que ele já revelou chatíssimo, como teatros, cinemas, igrejas, Unidades de Terapia Intensiva, auditórios e aviões. Mas ainda falta um pouco de treino para que desliguemos o celular automaticamente como paramos no sinal vermelho. Quem já não esqueceu o celular ligado e o bicho tocou na hora errada?
A esta altura, o leitor deve se perguntar por que diabos estou falando de telefone celular em um caderno de esportes, na cobertura do Pré-Olímpico de Futebol. Calma, calma. Eu chego lá. É conhecida a aversão do técnico Wanderley Luxemburgo ao toque dos telefones celulares durante suas entrevistas coletivas. Conhecida e justa. Na Copa América de 99, virou folclore a bronca do jornalista Carlos Lemos, assessor de imprensa da CBF, quando algum repórter esquecia o seu telefone ligado durante a fala do técnico:
– Olha o celulaaarrrr!
Nome de destaque na imprensa carioca, Lemos resume em seu mote a indignação contra um meio tecnológico de acesso fácil, mas manejo social ainda complicado.
E pensar que muitos jogadores do futebol brasileiro ainda padecem de um certo complexo de celular. Colocados, da noite para o dia, diante de recursos materiais abundantes, contratos milionários, patrocínios mundiais e somas astronômicas, vários craques perdem a cabeça – e os pés.
Usuários de celular desprevenidos não desligam o telefone nunca. Marinheiros de primeira viagem não fazem apito de saudação ao navio que se aproxima. Motoristas inábeis não sinalizam ao dobrar a esquina.
Legiões de atletas talentosos, como se deixassem o celular eternamente ligado, acabam perdendo a habilidade dentro do campo por conta das chamadas mercadológicas. Como se o celular dos contratos milionários permanecesse ligado mesmo dentro nos 90 minutos, impedindo o passe, o drible, o chute, a corrida, o gol.
O desafio de Wanderley Luxemburgo, hoje, é manter desligado esse inconveniente celular do mercado para chegar, sem interrupções, ao ouro olímpico.