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m de leitura Atualizado em 28/04/2022, 19:55

Ofuscada por torcedor preso, organizada do Boca tenta recuperar auge político

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de abril de 2022

ALEX SABINO E BRUNO RODRIGUES
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A detenção e o retorno à Argentina de Leonardo Ponzo, torcedor do Boca Juniors acusado de racismo contra corintianos, ofuscou o que foi a presença mais importante entre os torcedores que ocuparam o setor visitante da Neo Química Arena na última terça-feira (26), em jogo da Copa Libertadores.

Trata-se de Rafael Di Zeo, histórico líder de La 12, a barra brava do Boca -da qual Ponzo não faz parte, mas é fã. Em seu Facebook, Ponzo tem fotos com o chefe da organizada, que vai além de ser um simples torcedor.

Como outras referências da barra brava, a 12 tem tentáculos políticos que transcendem o futebol. São procurados por partidos, candidatos e sindicatos em busca de apoio. Às vezes, com presença em passeatas ou atos de apoio. Mas, às vezes, em atos violentos.

Não à toa, Di Zeo costuma se vangloriar da riqueza e da diversidade de números em sua agenda telefônica, como contam à reportagem pessoas que acompanham o dia a dia do Boca Juniors e as disputas pelo poder nas organizadas.

A admiração de Ponzo é apenas um exemplo da idolatria que líderes de barras bravas (e a própria torcida) podem provocar. São vistos como espécies de astros pop. Fora dos estádios, roupas e suvenirs das organizadas são procurados tanto quanto os uniformes da própria equipe.

Em 2010, antes da Copa do Mundo da África do Sul, a então presidente da Argentina, Cristina Kirchner, recebeu líderes de organizadas na Casa Rosada, sede do governo que ajudou a financiar a viagem deles para o torneio. Entre essas organizações nenhuma tem tanto poder, influência política e fama quanto La 12. Isso desperta também disputas violentas pelo controle, as chamadas "internas" pelo poder.

Desde que saiu da prisão, em 2011, por um ataque a torcedores do Chacarita Juniors cometido em 1999, Di Zeo retomou o comando da torcida organizada. Não sem atritos.

Enquanto Di Zeo esteve preso, o número um da hierarquia de La 12 passou a ser Mauro Martín, rival do antigo líder, que não queria ver sua torcida comandada por um homem que não fosse ele próprio.

Após anos de ameaças de violência entre um grupo e outro, a administração do presidente Daniel Angelici (2011-2019) no Boca conseguiu aglutinar as duas facções da barra brava. Um matrimônio de conveniência. Os torcedores não causavam problemas a Angelici, e o mandatário permitia a eles o controle dos negócios de La Bombonera (ingressos, venda de comida no estádio, estacionamento etc.).

Essa influência sobre o clube diminuiu nos últimos anos, especialmente depois de que Jorge Ameal, com o apoio do ídolo Juan Román Riquelme, venceu as eleições presidenciais em 2019.

Riquelme nunca mostrou muita simpatia pelos torcedores organizados, acostumados a visitar o vestiário e receber dinheiro dos jogadores do Boca para organizar eventos e custear viagens ao exterior para jogos da equipe em torneios internacionais. O ex-camisa 10 não estava entre os que contribuíam.

Diretor de futebol na atual gestão, ele busca limitar os poderes da barra brava, que hoje não tem a mesma influência política que tinha na década passada.

Mas Rafael Di Zeo e Mauro Martín querem recuperar o espaço que perderam sob a presidência de Ameal. Para isso, deverão apostar na candidatura da oposição nas eleições do ano que vem, uma chapa que pode colocar como adversário de Riquelme outro ídolo histórico do clube, Carlos Tévez.

"Não tenho dúvidas de que vamos ganhar as eleições por 80% a 20% ou por 90% a 10%, não importa quem saia candidato", disse Román em entrevista recente ao canal TyC Sports. "Se ele [Tévez] estiver do outro lado, vai ser 85% a 15%."

O futuro de La 12, entretanto, não parece depender apenas de uma vitória nas eleições.

Atualmente, tem ganhado corpo um grupo que inclui membros de uma facção dissidente, chamada Lomas de Zamora, além de ex-integrantes da barra oficial que frequentavam La Bombonera na época em que as tribunas eram comandadas por José "El Abuelo" Barrita, a figura de maior poder no Boca entre o início da década de 1980 e a metade dos anos 1990.

Em 1994, ele foi preso acusado de comandar uma emboscada a torcedores do River Plate que terminou com dois rivais mortos a tiros. Dois anos depois, Rafael Di Zeo, amigo de Barrita, assumiu a liderança da barra brava.

Barrita é uma lenda entre os torcedores organizados porque "inventou" o modelo de negócios utilizado por eles até hoje, também como ferramenta política.

Agora, Di Zeo e Mauro Martín, que nunca foram amigos mas se apegam à união para não perder o controle do grupo, veem-se ameaçados por essa facção dissidente, que quer a sua fatia do bolo nos negócios administrados pela torcida na Bombonera.

Circulou recentemente em grupos de WhatsApp na Argentina uma mensagem que dizia que "vai haver tiros", referência à disputa pelo poder da barra, com mais um episódio violento que parece iminente.

Para tentar manter o comando, os grupos que cercam Di Zeo e Martín frequentam setores separados em La Bombonera. Assim, evitam que um grupo dissidente possa assumir territorialmente uma tribuna e, a partir daí, ganhar apoio popular e de outros descontentes com os rumos dos negócios da torcida organizada.

O protagonismo da 12 fora das tribunas de La Bombonera deve crescer no ano que vem. É ano de eleições presidenciais tanto no Boca Juniors como na Argentina, o que deverá aumentar, e muito, o poder de barganha da organizada boquense.