Armando Nogueira
O triunfo
da fantasia
PARIS - Brasil, Holanda, França e Croácia são as quatro semifinalistas da Copa. O que de comum eu vejo entre elas é que as quatro, mais que as outras, são afins do futebol vistoso, bem jogado. Abaixo o antijogo! Podem até pecar por uma certa esterilidade na hora do gol, mas, não renunciam ao estilo ofensivo. Zelam pela bola, não com o intuito de sonegá-la ao jogo, mas querendo atacar, efetivamente.
Que diferença pra Copa de 94!, cuja final não poderia ter sido mais insossa. Duas fortalezas e entre elas uma ciranda de passes horizontais, inconsequentes. Um jogo que se arrastaria até os pênaltis, melancólico, monocórdio. A própria coreografia do sono.
Se me lembrarem que, agora, a França quase foi aos pênaltis contra o Paraguai, e, foi acabar, no jogo com a Itália, escapando, por um triz, da eliminação, eu respondo que a culpa, nos dois jogos, coube exclusivamente aos adversários. O Paraguai empilhou-se no seu campo e de lá só saiu na hora de ir pro vestiário. Da mesma forma, a Itália. Bem que a França martelou o tempo todo, buscando o gol, com clara constância. Até mesmo correndo o risco de sofrer um gol de contragolpe. Ainda bem que a Itália já se foi, sem deixar saudades. Que mais teria a fazer na Copa uma seleção que comete a heresia de deixar no sereno um jogador do calibre técnico de Roberto Baggio?
A Copa livrou-se, também, da Alemanha que, nos últimos tempos, não faz outra coisa a não ser jogar futebol de tabuada: dois e dois são quatro. Ora, o charme desse esporte é justamente quando uma equipe ousa subverter, no mesmo drible, a aritmética e a geometria euclidiana. É fazer aquilo que faz Rivaldo, acelerando a cadência, pra, num clarão, chutar cruzada uma bola que todos esperavam paralela, previsível, óbvia. Ou, então, o gol de Bergkamp, contra a Argentina, que começa numa bola docemente amortecida em pleno ar, desdobra-se num drible impecável pra terminar num chute com a face externa do pé direito. E lá se vai a bola, repassada de talento até enfunar a rede de Roa, canonizada de efeitos sublimes.
O futebol da Copa chega à derradeira semana em estado de graça. Estão em campo quatro seleções que prezam o drible, o passe, o chute, que são os fundamentos mágicos do futebol. A Holanda e a França, juntas, encarnam o passe, a ação coletiva, solidária. O Brasil e a Croácia simbolizam o drible, a invenção solitária do craque.
A Copa 98 pode celebrar, desde já, o triunfo da fantasia.
Duas chagas, duas mágoas
A história não gosta de se repetir: no mesmo dia em que a Alemanha era eliminada pela Croácia, a velha guarda do futebol recordava 44 anos de uma conquista impensável. No dia 4 de julho de 1954, a seleção alemã derrotava a Hungria, em Berna, 3 a 2, levando pra casa a taça Jules Rimet. Um desfecho impiedoso contra a mais bela equipe que o mundo viu jogar no começo dos anos 50.
Lembro-me bem. A tarde era chuvosa. Assisti ao jogo na companhia de dois queridos amigos, Janos Lengyel (infinita saudade) e de Walter Mesquita, então, brilhante cronista do velho Correio da Manhã, com quem até hoje vivo trocando recordações de tantos mundiais.
Nunca vi injustiça tão grande. Digo, já vi sim. Foi a final de 50, no Maracanã. Duas chagas, duas mágoas. O tempo passa, as chagas, não. O tempo passa, as mágoas, também não.
Domingo, pé de cachimbo
O Vaticano publicou, há dias, carta pastoral em que o papa João Paulo II pede a todos os cristãos que dediquem o domingo a Deus e não ao futebol. Sua Santidade está preocupado porque, durante a Copa, as igrejas ficam vazias na missa dominical das 11. Os fiéis preferem ficar em casa, torcendo pro tempo passar até que chegue a hora do jogo.
Ontem foi domingo, pé de cachimbo, pra felicidade do Vaticano não houve futebol. A Copa tirou folga. Os estádios ficaram fechados. O rebanho, certamente, retomou o caminho dos templos.
Em Paris, os franceses nem esperaram o repique dos sinos. Foram todos confessar, comungar, orando, com fervor, pro bem da seleção da França. Com toda certeza, deram graças ao Senhor pelo milagre da classificação em duas sofridas prorrogações, contra o Paraguai, primeiro, e, depois, contra a Itália. Um claro sinal de que os deuses do esporte estão vigilantes, cuidando do sonho da Fifa de reunir Brasil e França na final da Copa, dia 12 de julho.
Rápidas e rasteiras
- O ex-goleiro Gilmar, espião de Zagallo no mundial, tem em casa um verdadeiro tesouro: horas e horas de teipe gravadas na concentração do Brasil de 94. O material daria um documentário precioso, contando como se forja, na intimidade, o caráter de um time campeão do mundo. Gilmar gostaria de oferecer seu testemunho ilustrado a uma associação de garotos de rua que sonham ser craques um dia.
- Promessa de Goran Ivanisevic, tenista croata, antes de jogar a final de Wimbledon com Pete Sampras: ‘‘Se eu ganhar Wimbledon e os jogadores croatas, a Copa do Mundo, meu país vai se embebedar, inclusive eu.’’ Ivanisevic perdeu. Pileque adiado.
- Seis brasileiros no top dos 60 jogadores selecionados pelos técnicos da Fifa: Roberto Carlos e Cafu (laterais), Dunga, César Sampaio e Rivaldo (meia-cancha), e Ronaldinho (atacante). No dia 10, a Fifa elege os dezesseis melhores.
- Cesare Maldini, de cabeça fria, depois da derrota da Itália contra a França, desiste de abandonar a seleção da Azurra: ‘‘Depois de duas semanas de férias, voltarei com novas motivações. Tenho que me preparar pro Campeonato Europeu.’’
- Egil Olsen volta à cena da Copa, só que dessa vez, não mais como técnico da Noruega, eliminada nas oitavas-de-final pela Itália, mas como comentarista dos jogos da semifinal e da final pra televisão norueguesa NRK. De vidraça a estilingue.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
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