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VISÃO DE JOGO

m de leitura Atualizado em 21/03/2022, 06:52

O torcedor de ontem, hoje e amanhã

Se a cultura de torcedor e escolha de um time passa de pai para filho, o que os pais de hoje estão passando aos seus filhos?

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de março de 2022

Julio Oliveira
AUTOR autor do artigo

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|  Foto: Diego Prazeres - Editor
 

Torcer para um time de futebol é herança. De pai para filho, na maioria das vezes. A paixão pelo esporte e por um time em especial já é definida antes da saída da maternidade. Alguns, até com imposição, determinam a única opção que o filho terá em escolher as cores do time do coração. Tradição, folclore ou até de forma natural é o começo de um relacionamento que também incluirá muitos valores.

O que é torcer? Como, quando e onde torcer? Como vibrar ou sentir uma derrota? Como comemorar diante de um adversário? Como provocar um adversário? Todas essas perguntas acabam sendo respondidas pelas maneiras que se ensina a torcer. A referência é passada e depois seguida ou contestada, mas há uma influência primária de quem apresenta todos os rituais inciais. É um processo de convivência, mas educativo também. E, subliminarmente, são passados muitos conceitos que servirão para uma vida em sociedade como ganhar, perder, respeitar, competir.

Sou de uma geração que seguiu o time de coração do meu pai. Aprendi que torcer para um time de futebol era algo essencial para um menino. Aprendi que meu time ia ganhar e também perder, que o rival também ia ganhar e ia ser campeão. Aprendi que torcer era se emocionar em uma vitória e ficar triste, sim, na derrota, mas respeitar quando o adversário era melhor. Aprendi que haveria times melhores que o meu e que o meu seria melhor que outros. Aprendi que haveria temporadas inesquecíveis e outras para se esquecer, que ídolos viriam e também iriam embora. Essa geração também aprendeu a ficar ao lado de torcidas opostas num mesmo estádio e que brigas e agressões eram raras. E assim ensinei aos meus filhos.

Mas o tempo mudou e o jeito de torcer também. Há hoje uma geração mais raivosa, que define seu time como único e maior de todos, que o rival é inimigo e que se não vence, os profissionais são ruins. O torcedor de hoje esconde camisa e vai ao estádio à paisana. Torcer hoje não é só vibrar, é também permanecer atento como se pudesse estar desagradando alguém e sofrer sanções por isso.

Se a cultura de torcedor e escolha de um time passa de pai para filho, o que os pais de hoje estão passando aos seus filhos? Talvez, uma parte mais cautelosa ensine que ter um time do coração é permitido desde que não fale pra muita gente, não se envolva em polêmicas e nem ande uniformizado. Outra parte que é preciso brigar, marcar combates, ir a aeroportos e centros de treinamento fazer cobranças e ameaças.

Na última semana, o Fluminense foi eliminado na Libertadores. Ao desembarcar no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, comissão técnica e jogadores foram duramente abordados e questionados por "torcedores". Esta é a nova imagem de torcida. Não é a maioria, mas está a cada dia mais presente. Grupo caracterizado pelo comportamento agressivo, autoritário e intimidador quando seu clube não tem o resultado que lhe satisfaça. Para este novo perfil, é proibido perder.

Se o amanhã será fruto do que estamos construindo hoje, precisamos resgatar o modelo de torcer de ontem, para que tenhamos pessoas realmente preocupadas só em se emocionar com seus times e viver experiências que sintam prazer em recordar e passar aos torcedores de um futuro ainda mais distante. E se você não gosta de futebol, não se identifica com nenhum time e não vai a estádios não pense que essa realidade não lhe atinge, pois tudo isso está acontecendo e influenciando comportamentos e reações na mesma sociedade em que você vive hoje.

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