O 'sheikh londrinense' do futebol catariano
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quarta-feira, 02 de junho de 2010
Thiago Mossini<br>Enviado a Doha 
Doha - Nada de brincos extravagantes, cordões de ouro com letras trabalhadas em pedras preciosas para chamar e muito a atenção. Ostentação não é com ele. O perfil do londrinense que é astro no Catar contrapõe-se ao estereótipo do boleiro tradicional, principalmente os que ganharam status de superstars. Discreto, caseiro e avesso à badalações, é com os pés que Fábio César Montezine, 31 anos, ganhou fama, dinheiro e uma vaga na seleção do país.
A FOLHA foi ver de perto como é a vida desse londrinense que é tratado quase como sheikh por lá. A reportagem desembarcou em Doha dois dias depois de o time dele, o Al Rayyan, conquistar a Copa do Emir e sair de uma fila de seis anos sem títulos na competição. Montezine foi quem cruzou a bola para o gol do título marcado pelo atacante Afonso Alves, aquele mesmo a quem o técnico Dunga chegou a dar a camisa 9 da seleção.
Os rostos da dupla e do técnico Paulo Autuori, que comanda o time, estavam estampados em todos os jornais de Doha. Boa parte das manchetes os tratavam com o adjetivo ''rei''.
Montezine desembarcou no Al Rayyan no início do ano. Foi o próprio Autuori que pediu para que o Sheikh Abdullah bin Hamad Al Thani, primeiro ministro do país e dono do time, buscá-lo no Umm Salal, seu ex-clube e, coincidentemente, adversário do Al Rayyan na final da Copa do Emir. Seu contrato vai até junho de 2011.
O time é um dois mais tradicionais do país. Assim, a popularidade do meia-atacante aumentou. No Umm Salal, o assédio era pequeno. ''Já estou vivendo uma experiência nova. Sempre tem gente esperando para tirar foto depois do jogo'', contou Montezine.
Apesar de ídolo por lá, o londrinense tem que conviver com estádios vazios nos jogos. Com exceção das finais dos torneios locais e um ou outro jogo importante, as partidas são acompanhadas por um quantidade bem pequena de expectadores. Uma questão cultural.
''Os estádios ficam praticamente vazios. Mas o povo segue o time de casa. É uma questão cultural que devagarzinho está mudando. Mas o torcedor ainda prefere o conforto da sala de casa a enfrentar uma temperatura em média de 45 graus na arquibancada. É o futebol e o chazinho em casa'', contou o meia, entre um gole e outro de chá, uma das bebidas mais apreciadas no país.
Para tentar atrair o torcedor aos estádios, o Catar despejou seus petrodólares na contratação de estrangeiros, principalmente brasileiros. Como todos os jogadores são registrados na Associação de Futebol do Catar (QFA), o risco de calote é praticamente nulo e soma-se a isso os altos salários oferecidos e as mordomias que os acompanha.
Boa parte dos clubes têm técnicos brasileiros. Grandes brasucas também dão as cartas em quase todos os times, como Juninho Pernambucano e Araújo no Al Gharafa, atual campeão nacional e dirigido por Caio Júnior, Felipe, no Al Sadd, e muitos outros.
Copa do Mundo
A grande tacada, entretanto, para difundir a modalidade no país é a candidatura a receber a Copa de 2022. O projeto encaminhado à Fifa no mês passado, prevê obras faraônicas, como a construção de seis estádios climatizados.
A seleção do Catar quase deu um grande passo para quebrar o gelo com o torcedor. O time chegou até a fase final das Eliminatórias Asiáticas, mas perdeu a vaga para Austrália e Japão. Além de Montezine, titular absoluto da seleção catariana, outro brasileiro participou da inédita campanha: o zagueiro Marcone. ''Nosso time ainda é inexperiente nas competições internacionais, mas estamos crescendo com o tempo'', afirmou o meia, autor dos dois gols da vitória do Catar sobre o Paraguai no fim do ano passado.
Ele deve desembarcar em Londrina nos próximos dias para passar as férias. No retorno ao Oriente Médio, o jogador já volta a treinar também com a seleção catariana para a disputa da Copa do Golfo, em novembro, e os Jogos Asiáticos em janeiro.


