Armando Nogueira
Do Rio de Janeiro
Primeiro, foi a Hortência, de tantas cestas perfumadas. Agora, é Paula, Maria Paula, das mãos adivinhas. É uma saudade a mais. Porém, saudade que não dói. Zero de melancolia. Hortência, ontem, Paula, agora, ambas encarnam um passado glorioso do esporte brasileiro. E assim seguirão, pelo tempo, futuro afora, canonizadas, idolatradas.
Não choraremos o adeus de Paula porque não é o fim de um caminho. É apenas o termo de um ciclo numa existência perpetuada na gratidão de todos nós. Viveremos, sempre, o passado indizível de Paula, numa quadra de basquete.
Paula, das mãos que inventam cintilações. Das mãos que adivinhavam os caprichos da bola. Das mãos que regiam o jogo como se o basquete fosse um balé. (Alguém dirá que não é?)
Paula, Maria Paula, musa de meus devaneios esportivos. É hora de renovar um pergunta que tantas vezes te fiz sem que jamais tivesse reposta: afinal, de onde vem a aura que purifica os dedos de tuas mãos, quando lanças uma bola de três pontos? Quem te concedeu a graça de enfeitiçar a bola? E teus gestos, de que matéria luminosa vem tamanha majestade?
Obrigado, Paula, pelo dom com que fintavas a própria gravidade, alternando ritmos, criando e recriando espaços impressentidos, na árdua travessia de uma quadra. Bailarina do jogo, a inventar irretocáveis coreografias no palco de infinitas fulgurações. Sexto sentido da bola que sobe, radiosa, pra culminar florescida, triunfal, na castidade de uma cesta.
Beijo tuas cestas, Paula, pela ventura de poder beijar-te as mãos.

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