'O respeito, não há dinheiro que pague'
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domingo, 18 de janeiro de 2009
Dimas Rodrigues<br>Equipe da Folha 
A alta rotatividade dos técnicos no futebol brasileiro é bem conhecida pelo torcedor, e na maioria das vezes, recebe todo apoio. Bastam três ou quatro derrotas seguidas ou uma goleada em um clássico decisivo para o treinador ser sumariamente mandado embora do clube. Essa cultura é típica do Brasil, mas não é a única. E nem parece a ideal.
Há 22 anos na profissão, o paranaense Levir Culpi conhece essa cultura e, mesmo com inúmeros títulos no currículo, já sofreu com esse mal em alguns clubes. Em 2008, Levir começou e terminou a temporada em um mesmo time. E sem ganhar nenhum título. No Brasil, isso poderia soar estranho, mas não no Japão. ''Eles observam o trabalho do dia-a-dia e não os resultados. A diferença cultural é absurda'', disse o treinador do Cerezo Osaka, que disputa a segunda divisão do futebol japonês.
Levir, habituado com a dança dos treinadores por aqui, durante a temporada no Japão temeu ser demitido. E aos olhos do torcedor brasileiro, deveria ser. Na luta para subir à primeira divisão, o Cerezo Osaka fez no último dia 26 de outubro uma partida decisiva, em casa, contra o Vengalta Sendai, adversário direto por uma das três vagas na primeira divisão. Restavam apenas cinco rodadas para o fim do campeonato. E em um jogo equilibrado, melhor para o visitante: vitória do Vengalta por 4 a 3.
Depois da derrota, o presidente do Cerezo Osaka chamou Levir Culpi para um jantar. Quando o paranaense já preparava a caneta para rescindir o contrato, foi surpreendido. ''Ele chegou, falou que gostava muito do meu trabalho e que gostaria de saber se eu gostaria de ficar. Falei que nem ia discutir os termos do contrato para mais um ano'', contou, ainda mostrando perplexidade com a proposta.
E o choque cultural não aconteceu apenas nesse encontro. Levir, que já trabalhara no Japão, em 1997, se mostra encantado com o que vê diariamente. ''Lá funciona tudo mesmo: o trânsito, a educação é incrível. Se eu pudesse desejar alguma coisa, eu desejaria que todo brasileiro fizesse um estágio de pelo menos um ano no Japão. O povo todo é bem educado'', comparou.
A educação é prioridade por lá. ''Para se ter uma idéia, os meninos das categorias de base só podem treinar depois do horário da escola. E isso é fundamental, porque sabemos que só 3% conseguem ser profissionais e lá eles têm outras perspectivas. Não é como aqui'', observou.
A estrutura para trabalhar também é exemplar. Os gramados nos estádios por todo o país são perfeitos. Levir tem três intérpretes para auxiliá-lo. ''O importante é se fazer entender. Conheço algumas palavras-chaves e a gente se entende'', afirmou o treinador.
Ídolo no Atlético Mineiro, após levar o Galo novamente para a elite em 2006, e também no Cruzeiro, onde conquistou a Copa do Brasil, em 1996, Levir quer nesse ano acumular um novo título. ''Esse ano vamos subir'', disse, convicto, o treinador.
Ele afirmou que a confiança que recebeu do Cerezo fez com que recusasse uma proposta ainda melhor de um time brasileiro. ''Tem situações, como o respeito ao profissional, que não há dinheiro que pague'', finalizou.


