Paulo Briguet e
Valmir Denardin
É difícil ir aos jogos da Copa América morando no país do desemprego. O que poderia parecer simples - acompanhar as partidas da Seleção Brasileira no vizinho Paraguai - torna-se uma tarefa complicada. Os principais obstáculos são os altos preços dos ingressos e do transporte, muitas vezes com cobrança de ágio. Para quem tem pouco dinheiro ou está sem emprego, assistir à competição nas arquibancadas, mesmo a poucos quilômetros de casa, se transforma em sonho impossível.
Os institutos de pesquisa apontam até 10% de desempregados entre a população economicamente ativa no País, o que significaria mais de 10 milhões de pessoas. Na região de Foz do Iguaçu, não há estimativas oficiais, mas o desemprego é evidente, sobretudo pela presença dos ‘‘órfãos de Itaipu’’ (pessoas que vieram para a região trabalhar na hidrelétrica e depois ficaram sem emprego). Há também uma considerável faixa da população atuando na fronteira, no contrabando de mercadorias do Paraguai. A maioria absoluta só poderá ver os jogos da Seleção Brasileira pela TV.
Oficialmente, os preços dos ingressos ficam em 20 mil guaranis ou R$ 12,00 (arquibancadas) e 50 mil guaranis ou R$ 28,00 (cadeiras). Na segunda-feira, o comitê organizador da Copa América colocou à venda 5.293 ingressos para a rodada dupla de hoje (México x Chile e Brasil x Venezuela) em frente ao Banco Continental, em Ciudad del Este. Entre ontem e hoje, apenas mais mil ingressos foram colocados à venda. Formaram-se grandes filas no centro da cidade paraguaia, e houve tumultos.
O Estádio Tres de Febrero, onde serão realizados os jogos, tem capacidade para 28 mil pessoas. Portanto, pelo menos 21 mil ingressos foram destinados a agências de turismo ou foram parar nas mãos de cambistas. A Folha apurou que, nas ruas de Ciudad del Este, o ágio chegava a 600%, com o ingresso sendo cobrado até a R$ 80,00 (arquibancadas) e R$ 135,00 (cadeiras). ‘‘Um amigo foi comprar ingressos em Assunção, porque na fronteira estão vendendo muito caro’’, disse o torcedor Marcos Rocha, de Foz do Iguaçu, que pretende assistir a todos os jogos com um grupo de sua igreja.
O transporte para o Estádio Tres de Febrero também gera mais gastos para o torcedor brasileiro. Para atravessar a Ponte da Amizade, o torcedor poderá enfrentar um ágio de 200% no preço cobrado pelo transporte. Um acordo fechado no último dia 15, entre os transportadores e as prefeituras de Foz do Iguaçu, estabeleceu que os ônibus de turismo locais, vans e carros credenciados cobrarão R$ 5,00 por passageiro.
Uma central de transporte, montada por agências de viagens e de transporte da cidade, no entanto, está cobrando R$ 15,00 por passageiro. ‘‘Esse aumento é por conta das empresas e o torcedor saberá escolher’’, disse o diretor de Transporte Público da Prefeitura de Foz do Iguaçu, Sidney Prestes.
Há cerca de 1,8 mil veículos - ônibus turísticos, vans e táxis - credenciados para o transporte de torcedores. Esses veículos terão um roteiro exclusivo entre a saída da Ponte da Amizade, em Ciudad del Este, e o estádio. Quem optar pelo carro próprio não terá esses privilégios. A partir das 14h30, a ponte terá esquema especial de transporte: duas pistas no sentido Brasil-Paraguai e uma no sentido inverso.
A agência Cassinotur, de Foz do Iguaçu, centraliza oficialmente a venda de pacotes turísticos para torcedores brasileiros de outras cidades durante a Copa América. Os pacotes têm a facilidade de incluir o ingresso, transporte até o local dos jogos e um kit-torcedor (com camiseta, boné, sacola e almofada). Há quatro opções em hotéis de classe turística (três estrelas). Para assistir a apenas um jogo, sem contar a passagem de ônibus ou avião, o torcedor pagará R$ 144,00 (com um pernoite no hotel) e mais R$ 38,00 no dia seguinte se quiser fazer compras em Ciudad del Este (dois pernoites). Quem quer assistir dois jogos, dormindo quatro noites em hotéis de Foz, pagará R$ 362,00. Esta opção inclui passeios às Cataratas e compras no Paraguai. O proprietário da Cassinotur, Felipe González, garante que não faz vendas avulsas de ingressos. ‘‘Só vendemos ingressos incluídos nos pacotes turísticos’’, diz.
A expectativa inicial do setor turístico de Foz era receber 30 mil visitantes durante a Copa América. Essa previsão baixou para 5 mil nas últimas semanas. Na opinião de Felipe González, da Cassinotur, a quantidade de visitantes ainda pode aumentar, de acordo com o desempenho dos times na Copa América e a possível chegada de torcedores de outros países, por intermédio de agências do exterior.

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