A imprensa de 1958 conta que vocês fizeram sucesso com as mulheres suecas. Como foi mesmo essa história?
Nilton Santos Ä Pô, foi demais. Para o Castilho (goleiro reserva), que era louro, as mulheres nem olhavam. Mas para essa turma, o Oreco (lateral esquerdo do Corinthians, reserva na Seleção), o Zózimo (zagueiro do Bangu, reserva em 1958 e titular em 1962)... era demais. O Zózimo chegou a pensar em levar uma para o Brasil. Eu disse: ‘Olha que lá também tem neguinho, e ela vai pular o muro. É melhor não levar não!’ Já o Pelé sempre dizia que não fez nada na Suécia a pedido da mãe. Mas Pelé é muito retranqueiro, ele não se abre fácil não.
Pelé Ä O Castilho e o Mauro pegavam o dinheiro do bicho e falavam assim: ‘Se for por dinheiro tá aqui. Pô, essas mulheres não olham para gente, só pra vocês’. Vê o que é cultura. Eu saí de Bauru com 16 anos, fui para o Santos, estourei e já fui para a Copa, na Suécia, que na época não tinha imigração. Dificilmente tinha negro naquele lado do mundo. Não tinha um crioulo jogando na Europa. Hoje, tem um monte jogando lá. Nós é que abrimos as portas. Dizem que eu vivia rolando lá com as louras, lá na Suécia. Mas só tinha loura lá! Eu é que era novidade, era um crioulo. Por isso que tem esse mal entendimento que o Pelé só gosta de louras.
Nilton Santos Ä É, fez o maior sucesso...
Pelé Ä Eu comecei a aprender por lá. A mentalidade era mais avançada, a problemática do sexo, o tabu da virgindade, não eram tratados como aqui. Era junho, verão para eles, saía um sol e as mulheres eram igual jacaré.
E como era para conversar com as suecas?
Pelé Ä Alguns jogadores falavam um pouco do inglês, tinham uns empresários (Gunna Grimm, o empresário da Seleção falava sueco bem) que ajudavam. Intérprete era só no começo. O Zito, o mais velho do time, me gozava para caramba. Ele dizia que eu falava you, me, there (você, eu, lá, em inglês) pra convidar a menina para subir para o quarto. (risos). Elas não entendiam porra nenhuma.
Nilton Santos Ä Tinha um jogador do Botafogo, não lembro quem era, que desenhava até cama para tentar conquistar as meninas...
Pelé Ä O Pepe (do Santos) não fazia uns desenhos?
Nilton Santos Ä Ele fazia até composição (risos)...
Pelé Ä Era o maior conflito.
Nilton Santos Ä Estavam nos depravando...
Pelé Ä A coisa era tão natural na Suécia que era mesmo o maior conflito pra gente. Em um mês, você vai se adaptando. Aí vem o marido com a sueca pra te buscar pra ir na casa do lado, jantar. A gente ia treinar e lá estavam os maridos todos. Daí, o marido saía pra trabalhar e a mulher ficava e tal... Era uma coisa muito nova...
Tudo na inocência...
Pelé Ä Estava conversando com o Zózimo e ele me contou: pô, Pelé uma vez eu estava lá transando com uma garota e ela só dizia too much, too much (demais, demais, em inglês) e eu pensava, onde é que eu vou achar tomate agora? Será que na cozinha tem? (risos)
Vocês estavam com a bola toda...
Pelé Ä Os crioulos é que mandavam lá. O Moacirzinho (do Flamengo, reserva de Didi), ficava depois do treino com um monte de garotas de 16, 17 anos.
Nilton Santos Ä E que neguinho feio, hein rapaz?
Pelé Ä Pois é, mas era novidade.
Nilton Santos Ä Tinha aquele coreto lá pra dançar. E ele ficava embaixo com aquelas louronas lá, rebolando.
Pelé Ä Depois da final, primeiro fui rezar e também queria me comunicar com a família para dar a notícia de que tínhamos sido campeões. Naquele tempo, era rádio-amador. Tinha uma festa na embaixada e por isso cheguei um pouco tarde. Quando cheguei estava o Moacir me procurando: pô dá um tempo aí, dá um tempo aí. Mas por quê? Eu falei pra embaixatriz da Noruega que eu era o Pelé, dá um tempo. Não entra agora não...
E no campo? Pelé, você falou em Didi e Gerson e jogou com os dois. Quem foi o melhor para você?
Pelé Ä O Nilton jogou mais tempo com eles.
Nilton Ä É difícil. Gerson, Didi e Zizinho...
Pelé Ä Eu acho que o Didi. O Didi era mais jogador, principalmente para o time.
Ele ganhava em quê do Gerson?
Pelé Ä Ele ganhava em agilidade. Ele driblava, ia para o gol. E o Gerson era mais visão, lançamento.
Nilton Ä O Gerson era mais passe longo...
Pelé Ä Mas também acho que o Gerson tinha mais visão que o Didi. O Gerson metia a bola onde queria. O Didi metia curva na bola. Hoje você não vê isso. Agora, não posso fazer injustiça. Uma das grandes cabeças que eu gosto de ver jogar é o Djalminha.
Em 1962, sem Pelé, que se machucou no segundo jogo (contra a Tchecoslováquia), ficou tudo mais difícil. Qual foi a importância do Garrincha na Copa do Chile?
Pelé Ä Pra mim, ele ganhou a Copa.
Sozinho?
Pelé Ä Sozinho não, mas ele decidiu. Fez gol de cabeça, de perna esquerda, fez passe, tabelou. E o Amarildo (atacante do Botafogo) foi uma surpresa.
O que vocês conversaram com o Amarildo quando ele entrou no lugar de Pelé?
Pelé Ä Foi difícil. Ele era vaidoso pra caramba.
Nilton Ä Eu ia todos os dias ao apartamento dele e falava: ‘‘Olha aqui, você vai entrar e não vai querer fazer mais que o Pelé. Você é o Amarildo e o Pelé é o Pelé, só que ele tá machucado’’. A vantagem é que ele era do Botafogo, a gente já se conhecia, e estava acostumado como Zagalo...
Como foi o lance do pênalti no jogo com a Espanha, na Copa de 1962? Foi uma coisa do momento, instinto? Você já tinha feito uma jogada parecida com aquela, antes? (Depois de derrubar o ponta Collar, Nilton deu um passo e saiu da área. O árbitro marcou a falta, mas não o pênalti)
Nilton Ä Foi instinto. Se eu boto a mão na cabeça...
E do futebol atual, quem vocês gostam de ver jogar?
Pelé Ä O búlgaro Stoitchkov, do Barcelona, que joga no ataque, está fora de forma, mas gosto dele pra caramba. O Ronaldinho é um jogador que eu gosto de ver jogar, mas ele é mais de explosão. É um garoto que está saindo das dificuldades da marcação pela inteligência, está se deslocando melhor.
Nilton Santos Ä Tem o Juninho que está na Inglaterra. É pequenininho, mas tem habilidade. No meio daqueles grandalhões, ele está aparecendo.Pelé e Nilton Santos relembram casos de assédio de mulheres na Copa da Suécia e analisam a conquista do bi, no Chile

Correio BrazilienseHumor na camaPelé: ‘‘O Zózimo transou com uma garota que só dizia ‘too much, too much’. Ele pensou: onde é que eu vou achar tomate agora?
Especial para a ‘Folha’
A Folha publica a segunda e penúltima parte da entrevista que dois dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos concederam ao ‘‘Correio Braziliense’’, durante recente reencontro promovido pelo jornal. Pelé, tricampeão mundial com a Seleção Brasileira (58, 62, 70) e Nilton Santos, bicampeão (58 e 62), contam casos de assédio das mulheres durante a Copa da Suécia. A surpresa com a liberalidade das suecas e algumas histórias hilárias recheiam a conversa. Eles falam também sobre a Copa de 62 e de craques fabulosos como Garrincha (‘‘Ele ganhou a Copa do Chile’’, diz Pelé), Didi e Gerson. Ainda nesta página, um depoimento de Nilton Santos sobre aqueles anos maravilhosos do futebol brasileiro. Ele admite oficialmente que os jogadores mais experientes pediram ao técnico Feola para que escalasse Garrincha no lugar de Joel em 58.






‘Depois do treino

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