'O povo gosta é de vitória'
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quarta-feira, 28 de junho de 2006
Marcos Penido<br> Agência O Globo 
Bergisch Gladbach - As portas para o castelo de Lerbach onde está hospedada a seleção brasileira se abrem. No caminho, entre um enorme jardim com lagos, passarinhos, patos e gansos, Ronaldo conversa com a namorada Raica. Uma subida em uma estrada de terra e se chega à entrada. Um restaurante e algumas mesas vazias com ombrelones (guarda-sol) são o cenário escolhido pelo técnico Carlos Alberto Parreira para dar uma entrevista à Agência O Globo. São 13h40m. Parreira desce, cumprimenta educadamente e logo dá o mote do que passa em sua cabeça neste momento da Copa do Mundo: ''O povo gosta é de vitória. Eu também quero futebol bonito, mas primeiro quero ser novamente campeão do mundo!''.
O Globo - Porque você acha que reclamam tanto da seleção se ela está vencendo?
Parreira - Não estou preocupado com isto não. As coisas estão acontecendo de uma maneira natural. Inventaram esta história de futebol show e eu pergunto: por quê só o Brasil tem que dar show? Não estou vendo ninguém dando show na Copa do Mundo. Estão todos jogando com muita aplicação, consciência tática e espírito coletivo, tanto que a Copa até então não revelou um jogador que seja o grande nome da Copa. Por quê? Porque o futebol solidário está se sobrepondo ao futebol individual. Mas com certeza, até o último jogo algum jogador vai se sobressair. Porque sempre o ganhador da Copa do Mundo faz a diferença. E nós temos gente que pode fazer esta diferença. Temos bons jogadores mas que estão jogando imbuídos deste espírito de equipe. A Copa do Mundo é uma competição diferenciada e eu sempre dou o exemplo da Suíça, que jogou quatro jogos, não tomou nenhum gol e está em casa. A história não fala dos times que deram shows, fala de times que chegaram às finais e que foram campeões.
O Globo - Você não tem condição de montar um time apaixonante além de vencedor?
Parreira - O brasileiro gosta de ganhar Copa ou gosta de voltar mais cedo para casa? Eu acho que ele gosta de ganhar a Copa. O que é um time apaixonante? Eu não sei responder a esta pergunta. É um time que joga bonito, que só joga bonito e não ganha, o que é exatamente? Eu não conheço no futebol o que é um time apaixonante. Conheço time tecnicamente bom, que joga bem e a gente não é contra. Em uma Copa do Mundo o que interessa é a vitória é passar para adiante. Recordes não trazem resultados mas é interessante. Veja bem: só um futebol poderoso como o nosso bateria os recordes que estamos batendo: 11 vitórias seguidas, superamos a Itália que ficou 70 anos com sete vitórias e, de repente, o Brasil passou para 11 vitórias seguidas. É um número que dificilmente será igualado neste novo século. São coisas boas que estão acontecendo mas o que mais o torcedor quer é ser campeão do mundo. Eu não tenho a menor dúvida sobre isto.
O Globo - Você não acha que tendo a melhor geração do futebol brasileiro nos últimos tempos, vencer só não basta? Que é importante que o time jogue bem, além de ser eficiente?
Parreira - Eu não consigo responder a esta pergunta. O importante é ganhar. Acho até que nós conseguimos jogar bem e ganhamos quatro jogos. Agora, nós não podemos entrar nesta histeria de que o mundo está nos olhando. Por quê só o Brasil tem que dar show?
O Globo - Geralmente o mundo olha o Brasil por causa do show de bola.
Parreira - Tudo bem, mas aí o mundo não vai lamentar se nós perdermos, se voltarmos para casa? Eu vou ficar muito triste, os jogadores vão ficar tristes, o torcedor brasileiro vai ficar triste e vocês da imprensa também, embora vocês não saibam disto. Vão ficar tão tristes quanto a gente. Acho que está indo tudo bem, não vamos entrar nesta histeria, nesta neurose. Copa do Mundo é uma competição diferenciada e a gente está indo muito bem e não se esqueça; esta Copa é na Europa, é na casa dos inimigos. Estão todos aqui: Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Brasil e Argentina. Todos os campeões mundiais passaram para a outra fase. O que vem mostrar a importância na história do futebol do peso da camisa das tradições destes times, etc...
O Globo - Que jogadores chamaram a sua atenção na atual Copa do Mundo?
Parreira - Não vi todos os jogos. Gostei do Podolski e do Ballack, da Alemanha, do Vieira, do Henri no meio e o que entrou ontem, Ribberic, lá do Marseille que trabalha para o time. O Fabregas da Espanha é bom. Agora aquele jogador que fez a diferença como Pelé, Maradona, Ronaldo, Rivaldo, ainda não. O Brasil está jogando um futebol coletivo. Todos tem jogado solidariamente. Então este é o nosso espírito. Ganhar com todos se destacando e fazendo uma equipe que ganhe e brilhe.
O Globo - Você escalou dois times diferentes nesta Copa. O que jogou as duas primeiras partidas e depois a quarta e o que enfrentou o Japão. Foi pelas características dos jogadores e dos adversários?
Parreira - O estilo do jogador é que determina o estilo do time embora a estrutura tenha sido mantida em todos os jogos. Contra o Japão foi uma vitória muito bonita de 4 a 1 mas foi um jogo diferente. Veja bem, a gente não pode achar que jogou bem porque não tinha responsabilidade mas é diferente. Uma coisa é entrar contra um time sabendo que pode perder e ser o primeiro; outra coisa é entrar sabendo que se perder está fora da competição. A carga de responsabilidade é muito maior sem tirar o mérito de quem jogou. Tanto é que o Juninho e o Gilberto Silva, entre outros, entraram neste último jogo e poderão ser aproveitados em outras ocasiões. É assim que você vai formando um grupo vencedor.
O Globo - No caso específico do Adriano que marcou gols decisivos na Copa das Confederações e nas eliminatórias, porque não está se apresentando tão bem quanto nestas competições?
Parreira - Adriano ainda é jovem, tem 23 anos, é a primeira vez que vem a uma Copa do Mundo, veja bem, não está bem mas já fez dois gols mano. Aos pouquinhos a gente vai dando a cara ao time, formatando o time, agora chegou a partida contra a França. E tem que chegar, entrar em campo, jogar e ganhar. são jogos decisivos.
O Globo - Você pode falar da França, nosso próximo adversário?
Parreira - Olha, desde quando fizemos um amistoso na Rússia que nossos jogadores já falavam do time da França como um dos prováveis vencedores da Copa. Eles têm um time experiente com seis jogadores que já conquistaram uma Copa do Mundo. É um time muito experiente e perigoso. Já citei o Henri, o Vieira e o Ribberic, e nem citei o Zidane. Eles têm o time mais experiente da Copa e jogando bem. Cresceram no momento certo. Uma subida impressionante. Nós tínhamos em 1998, o Cafu, o Roberto Carlos, Ronaldo e Dida. Três que jogaram e um que não atuou. Para vencê-los temos que jogar um futebol solidário. O individual à serviço do coletivo. Caso contrário vamos ter muitas dificuldades.


