O piloto do melhor piloto
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de março de 2011
Elaine Souza <br> Reportagem Local 
Nascido em uma família onde a aviação impera entre as profissões há três gerações, Waldemir de Oliveira, ou simplesmente comandante Oliveira, é de fato um profissional referência na categoria de pilotos da avião comercial e executiva do Brasil. E todo reconhecimento não veio de mão beijada. Muito pelo contrário.
Foram quarenta anos que somaram 17 mil horas pilotando boeings e jatos. Oliveira trabalhou na extinta Vasp, durante anos voou para a presidência do Banco Real e para o governo do Estado de São Paulo, onde era o responsável por levar e trazer em plena segurança os governadores Mario Covas e Geraldo Alckmin.
Entra no pacote de passagens fascinantes na vida desse profissional um período que definivamente marcou para sempre sua vida. Durante três anos o londrinense pilotou, acompanhou e conviveu com nada mais nada menos que um dos esportistas mais queridos do mundo e muito provavelmente o ídolo número um dos brasileiros. O nome em questão é Ayrton Senna.
''Na época eu trabalhava em uma empresa de táxi aéreo e pilotava um modelo igual ao que o Ayrton queria comprar. Eu conheci o piloto dele, mas ainda era necessário mais um, pois para aquele avião eram necessários dois comandantes. Um dia eu estava no hangar quando Ayrton apareceu. Ele veio até mim para perguntar sobre avião. Ficamos por mais ou menos duas horas dentro do jato, onde expliquei tudo para ele. No final ele perguntou: você não quer voar para mim?. Eu, também como fã de automobilismo e fã dele, aceitei na hora'', lembra Oliveira.
O ano era 1989 e nessa época o comandante já acumulava 30 anos de profissão. Mais que rapidamente deixou o emprego de sete anos como piloto do presidente do Banco Real, e partiu para a Alemanha, onde Senna se preparava para mais uma corrida. Nesse período o esportista namorava a apresentadora Xuxa e já era vislumbrado por muitos como o Pelé do automobilismo mundial.
Nos três anos acompanhando Ayrton Senna, sobram lembranças e momentos especiais. Além isso, Oliveira o define com conhecimento de quem teve o privilégio de conviver no íntimo com um grande campeão. ''Senna era meticuloso, perfeccionista. Para ele não existia 99%, tudo tinha que ser 100%. Por isso foi tudo o que foi. Como patrão e como pessoa não tenho nada do que reclamar. Ele era meio fechado, mas com razão. Um dia ele disse em uma entrevista que tinha que se fechar um pouco porque nunca sabia quando a pessoa estava chegando por interesse ou por amizade''.
Ao lado de Senna, comandante Oliveira percorreu o mundo e, para a inveja dos enlouquecidos por velocidade, zanzava pelos boxes das equipes onde conheceu grandes pilotos. ''Ele fazia questão que eu ficasse nos mesmos hotéis que ele. Sempre que dava eu o acompanhava até os lugares das corridas. Era algo incrível estar ali, vendo todos aqueles pilotos'', relembra.
Todo observador imparcial que desse uma olhada no panorama da carreira de Ayrton Senna concluía que, além de um singular profissional, ele era um homem de extrema inteligência, sensibilidade, simplicidade e muita fé. Tudo isso mais que confirmado por Oliveira. ''Ayrton era muito humilde, correto demais. Nunca vi ele tendo momentos de estrelismo. Quando estava no Brasil só queria saber da família, de brincar com os sobrinhos. Adorava andar de lancha, jet ski e quando estava na praia, se reunia com a irmã e o cunhado, que já faleceu também, para estudarem a Bíblia. Lembro que na ilha dele em Angra dos Reis, eles passavam horas na areia estudando a Bíblia''.
É de Angra que o londrinense mais guarda recordações ao lado do patrão. Oliveira na época também era dono de uma escola de mergulho e recebeu um convite do ídolo para que lhe desse algumas aulas. O comandante então pegou os equipamentos e seguiu para a ilha, onde iria ensinar Ayrton a mergulhar. Chegando lá um acidente interrompeu o que seria também uma 'parceria' debaixo d'agua. ''Quando cheguei em Angra, ele estava fazendo esqui na água. De repente ele levou um tombo feio, caiu com a cara na água e furou o tímpano. Corri para o hospital com ele. Lembro que enquanto Ayrton fazia o curativo lhe disse: 'nem começou o seu curso e já acabou'. Quando voltamos ele me convidou para ficar descansando na ilha durante 15 dias, com ele e sua família''.
Despedida
Certamente a pergunta que não quer calar é 'por que o emprego dos sonhos durou apenas três anos?'. Oliveira trabalhava para um ícone do esporte mundial, ganhando - como ele mesmo frisou várias vezes durante esta entrevista - o melhor salário de sua vida, conheceu lugares inesquecíveis e conviveu com outras celebridades.
''Eu fui o piloto que mais tempo trabalhou com o Ayrton. O fato de eu ser solteiro na época ajudou muito, pois quando ele estava em temporada eu chegava a ficar sete meses fora do Brasil. No primeiro ano foi bom, no segundo fui cansando, no terceiro era inevitável não ficar agoniado. Minha casa no Brasil ficava abandonada. Quando voltava nem os cachorros me reconheciam direito. Eu queria minha terra, falar minha língua, comer pastel, churrasco, coisa que lá fora não tem como aqui. Vivia em hotel, era a mesma mala, as mesmas roupas. Para um piloto é muito difícil, ainda mais se ele for casado. O piloto anterior a mim tinha um filho e saiu porque não estava conseguindo ver a criança crescer'', finaliza.


