O julgamento de Pekerman
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quarta-feira, 07 de junho de 2006
Maurício Fonseca<br> Agência O Globo 
Nuremberg, Alemanha - O treinador José Pekerman não é nenhum criminoso de guerra, mas também será julgado na Alemanha. À frente da seleção argentina desde setembro de 2004, ele terá o trabalho de quase dois anos analisado por um tribunal formado por jornalistas e torcedores de seu país, que usarão os jogos da Argentina na Copa do Mundo para decidir o futuro deste judeu argentino de 56 anos. Se sua equipe for bem, será absolvido. Mas se falhar, como aconteceu com Marcelo Bielsa há quatro anos, dificilmente terá a benesse dada ao ex-treinador, que mesmo com a favoritíssima Argentina eliminada surpreendentemente na primeira fase, ganhou uma sobrevida no cargo, de onde só saiu dois anos depois. O Mundial será como um Tribunal de Nuremberg para José Pekerman.
''Não há certezas absolutas no futebol. Mas posso afirmar que temos um grupo forte, com bastante opções. Conheço muito bem os jogadores e sei o que eles podem fazer'', afirma Pekerman, que se recusa a fazer prognósticos quando perguntado sobre as possibilidades da Argentina na Copa do Mundo.
Ex-jogador mediano, que defendeu Argentino Juniores e Independiente de Medellin (Colômbia), Pekerman talhou sua carreira de treinador nas divisões de base. E foram os resultados exepcionais que conseguiu com a seleção sub-20 que o credenciaram para dirigir a seleção principal depois da saída de Bielsa, que largou o cargo após a conquista da medalha de ouro olímpica, em 2004, nos Jogos da Grécia.
Com Pekerman, a Argentina ganhou os mundiais sub-20 de 1995 (Qatar), 1997 (Malásia) e 2001 (Argentina). Foi ele quem revelou astros como Riquelme, Sorín, Aimar, Tévez, Saviola, Mascherano, entre outros. Não por acaso, estão todos agora em Herzogenaurach, cidade próxima a Nuremberg, onde a Argentina faz os últimos acertos para a partida de estréia na Copa, sábado, contra a Costa do Marfim, em Hamburgo.
Ninguém na Argentina discute os méritos de Pekerman com os garotos. Os títulos e a quantidade de bons jogadores revelados são dados inconstestáveis. Mas isso bastaria para garantir seu sucesso também na equipe principal? O técnico Cesar Menotti, campeão do Mundo em 1978, por exemplo, acha que não. E sustenta suas dúvidas no fato de Pekerman só agora estar tendo uma experiência de verdade com um time de homens. ''Quem é José Pekerman?'', perguntou, com sarcasmo, Menotti, em setembro de 2004, logo após o treinador ser escolhido para ser o técnico da Argentina na Copa da Alemanha.
Pekerman mostrou a Menotti quem era logo na sua estréia, diante do Uruguai, pelas eliminatórias. Com uma ótima atuação no Monumental de NuÀez, a Argentina venceu por 4 a 2. O ponto alto do treinador à frente da seleção foi exatamente há um ano (8 de junho), quando seu time venceu o Brasil por 3 a 1, também pelas eliminatórias, com uma atuação impecável na primeira etapa, quando fez 3 a 0 e pôs os pentacampeões do mundo na roda.
Menotti se calou, assim como Maradona, também um crítico de primeira hora. Mas como diz o próprio Pekerman, nada é definitivo no futebol. Menos de um mês depois, Brasil e Argentina voltaram a se enfrentar, desta vez em Frankfurt, na final da Copa das Confederações. O Brasil humilhou a Argentina, venceu por 4 a 1 e todas as dúvidas sobre a capacidade de o treinador dirigir um time de adultos voltaram. Dúvidas estas que só aumentaram com as derrotas nos amistosos contra Inglaterra e Croácia, ambas por 3 a 2, já em 2006.
Apoio ''Ele já mostrou que é um grande treinador'', sustenta um suspeito Sorín, homem de confiança de Pekerman e que será o capitão da seleção no Mundial. Ontem, o ex-jogador do Cruzeiro disse o quanto foi importante para o grupo a visita de Gabriel Batistuta, maior goleador da história da seleção argentina, à concentração em Herzogenaurach. Hoje é possível que Maradona apareça.
A lealdade de Sorín, porém, não basta para os argentinos. Eles querem mais dados para julgar o trabalho do treinador. Os jornalistas reclamam que o time jogou muito pouco sob o comando de Pekerman. Foram apenas 22 partidas, com 11 vitórias, cinco empates e seis derrotas. Não se tem uma idéia concreta do que a Argentina poderá fazer na Copa.
Os resultados serão fundamentais para o julgamento. Mas, ao contrário do que aconteceu há 60 anos em Nuremberg, quando 23 pessoas foram julgadas e oito condenadas à morte, os 23 jogadores da seleção seguirão suas vidas normalmente em seus clubes após o Mundial, com a Argentina ganhando ou não. Mas o que será de Pekerman?


