O jornalismo da Globo melhorou ou...
O jornalismo da Globo melhorou ou...
Marcos Cesar Gouvea
Lobo não come lobo em festa que tem cordeiro. A máxima deve ser desmentida no chamado escândalo Conaf. Lobo está comendo lobo no grande negócio do futebol brasileiro. A poderosa Rede Globo de Televisão, que durante décadas pautou e continua pautando o noticiário nacional, empreende agora uma cruzada moral na vida nacional, inclusive no esporte. Nada mais salutar. Imaginem que bênção seria se o futebol brasileiro ficasse livre de Ricardo Teixeira, Ivens Mendes, Caixas DÁguas & Cia. Imaginem que bênção seria para o futebol se, ao final disso tudo, todos os dirigentes de clubes, corruptos e corruptores, fossem banidos. E se os árbitros desonestos, os chamados cirurgiões, fossem banidos? Seria perfeito.
No entanto, a gritaria que se instalou depois da divulgação das fitas anônimas pela Globo esconde, ainda, alguns pontos importantes.
A TV Globo foi motivada pelo interesse jornalístico ou por algum outro interesse? Não podemos esquecer que outros interesses, historicamente, pautaram a vida da grande rede. Alguns exemplos: há 12 anos, ela tentou esconder a famosa campanha pelas eleições Diretas Já que rugia pelas ruas. Em 1989, colocou no ar a famosa edição do debate Collor-Lula, mostrando que não media consequências na defesa dos seus interesses. No governo Collor, linchou no ar o então ministro da Saúde Alceni Guerra, que depois foi isentado pela Justiça.
É verdade que, depois daqueles imbróglios políticos-eleitorais, a Globo mudou. Mais recentemente, melhorou o seu jornalismo. Mas é bom manter a serenidade. É necessário priorizar as investigações do escândalo Conaf, com serenidade e rigor científico. É necessário garantir aos acusados o direito de defesa, e que não sejam condenados antes pela gritaria da mídia. O jornalismo brasileiro causou recentemente danos irreparáveis a dezenas de pessoas inocentes, por agir sem responsabilidade e de forma precipitada.
Na briga de lobos, vamos a alguns dados, que estão fora da mídia na gritaria atual:
A Globo trombou com a CBF na última partida da Seleção Brasileira, contra o México. Acostumada a marcar o horário dos jogos, a rede foi colocada de lado por força da Nike, nova patrocinadora da Seleção.
O presidente do Atlético Paranaense, Mario Celso Petraglia, na linha de fogo do escândalo, articulava uma resistência à ditadura do Clube dos 13 e da CBF no grande negócio do futebol brasileiro, principalmente nos direitos de transmissões que envolvem naturalmente as rede de TVs, pagas ou abertas.
Nada exime, a princípio, Ivens Mendes, Petraglia e Alberto Dualib (do Corinthians), no festival de troca de favores e verbas, extorsão e indícios de corrupção até agora revelados pela Globo. Principalmente Mendes está altamente comprometido pelas conversas grampeadas e gravadas em seu telefone.
Mas há coisas estranhas neste nova reportagem investigativa da Globo. Por exemplo: o grampeador do telefone de Ivens Mendes não gravou nenhuma, nenhumazinha que seja, conversa comprometedora de Ivens Mendes com dirigentes cariocas? Será porque no futebol daquele Estado não há tráfico de influência, extorsão, arranjo de jogos, corrupção? Ou foi azar do grampeador? Se dirigentes de clubes cariocas não aparecerem será uma surpresa muito grande para o País todo, dado o histórico do futebol brasileiro.
Marcos Cesar Gouvea é editor de Esportes da Folha de Londrina





