Luis Fabiano anda fazendo gol, a torto e a direito. Quando não cria, ele próprio, a jogada certeira, há sempre alguém pra lhe dar um presente, na pequena área. Uma coisa parece inegável: o rapaz é um predador insaciável. Ele me lembra um certo peixe, chamado dourado, que conheci nos rios amazônicos. O dourado vive na batalha. Se a presa não vem a ele, ele vai a ela, fulminante como um raio. Assim é o dourado Luis Fabiano: por uma bola, sua presa, ele rola, esfola, rebola.
O time do São Paulo preza a técnica como poucos no mundo. Não chega a ser uma perfeita constelação. Funda-se, porém, numa feliz confraria de excelentes jogadores, como Ricardinho, Reinaldo, Rogério e, acima de todos, Kaká. Em torno desses criadores, circula, em perfeita sintonia, um grupo de operários, verdadeira mão-de-obra qualificada que não pode faltar numa equipe. Me refiro, notadamente, aos volantes Maldonado e Simplício e ao lateral Gustavo Néry. Os demais conpensam claras limitações com uma louvável aplicação. Afinal, nem tudo é perfeito.
Luis Fabiano não forma no grupo de refinados, cuja expressão máxima é Kaká. Embora, aqui e ali, se deixe contagiar pelo fascínio do passe, Fabiano é o jogador do choque físico, das explosões, das divididas; enfim, é chumbo grosso na grande área. E parece estar vivendo aquele momento de conjunção muito comum entre os corpos celestiais. De repente, a lua se encontra com Júpiter e desse encontro surge aquele samba zodiacal. Fabiano está assim com a bola específica de gol.
Como na Epístola...
Já o Corinthians é outro departamento. Não é o requinte artístico que o caracteriza. Nunca foi. Nem a torcida faz questão que seja. O que incendeia o corinthiano é a flama. Ninguém o chama de Timão por ser uma grande equipe, tecnicamente falando. O aumentativo tem tudo a ver com o tamanho da alma, que é, realmente, colossal; tão colossal que chega a assustar.
Não me perguntem de onde vem o pique, de onde virá essa animação incontida e, ao mesmo tempo, avassaladora que tanto inflama o time do Corinthians. Talvez, quem sabe, provenha do versículo 8, capítulo 4 da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, que, agora, reproduzo: ''Em tudo, somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, porém, jamais desanimados.'' Não é a cara de todos os times do Corinthians?
Aí, vem o treinador Geninho e adiciona à essa alma irrefreável uma boa dose de técnica e de tática. Resultado: haja força e sabedoria pra anular o incômodo de ter pela frente dois atacantes irresistíveis como Liedson e Gil, ambos mercuriais, ambos ávidos do mesmo fruto que faz a cabeça do insaciável Luis Fabiano.
Vem, então, a questão: o novo time do Corinthians será melhor ou pior que o anterior, de Parreira? A meu ver, o atual é melhor por uma singela razão: tem mais jeito de Corinthians, tem mais a cara do dono. O dono, no caso, é o torcedor. Mais precisamente, o coração do torcedor, de cuja fibra é feita a camisa alvinegra.
O time corintiano, hoje, alia ao ímpeto primordial um toque de excelência que vem dos pés do armador Jorge Wagner, promissora presença que revive, na meia-cancha, o senso tático perdido com a saída de Ricardinho.
Encerro esta conversa, pensando na crônica anterior em que não ousei indicar um vencedor no clássico Corinthians x São Paulo. Mudei de idéia. Tudo me leva a afirmar, de boca cheia, que o grande vencedor desse jogo será o futebol. Falei e disse.
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