Coritiba, Atlético ou Ferroviário. Antes mesmo de começar o Campeonato Paranaense o torcedor já sabia que um dos três times, na maioria das vezes o Coritiba, seria o campeão. Mas um dia isso iria acabar. Como diz o ditado popular, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura... Finalmente o sonho de um time do interior alcançar um título paranaense saiu, literalmente, do papel. Mais precisamente do papel produzido pela indústria Klabin, que garantia a receita do Clube Atlético Monte Alegre (Cama), campeão estadual de 1955, acabando com a supremacia dos clubes da capital.
O Cama abriu as portas para as conquistas de clubes do interior. Até então nenhum time tinha chegado ao topo do futebol estadual.
O clube nasceu em 1º de maio de 1946, no distrito de Harmonia, na extinta Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, substituindo o Klabin Esporte Clube. O futebol chegou à cidade por meio do empresário Horácio Klabin, dono da indústria de papel que leva o seu sobrenome. Ele montou um time, trouxe jogadores de outras cidades, principalmente do Rio de Janeiro, onde estava situada a sede da empresa, mesclando com atletas locais e construiu o estádio, que leva seu nome, em Harmonia, apelidado na cidade de ''Cemitério dos Líderes'', porque o time era imbatível em casa.
Já em 52, a Pantera Negra (símbolo do time) começou a incomodar, mas não alcançou mais do que a artilharia do campeonato com o atacante Taíco, que marcou 20 gols. Em 54, o maior jogador da história do clube voltou a ser o goleador, desta vez com 22 gols marcados.
Mas o clube queria mais e em 55 conseguiu. A diretoria reforçou o elenco, contratou o técnico Rui Santos, o Motorzinho, e o Cama quebrou a hegemonia da capital. Em uma campanha recheada de goleadas, principalmente em cima dos clubes de Curitiba 5 a 2 no Ferroviário, 4 a 1 no Atlético, 6 a 0 no Britânia e 10 a 1 no Palestra Itália , o time da ''Capital do Papel'' venceu os dois primeiros turnos e se classificou para a final. O Ferroviário ganhou o terceiro turno e foi disputar a final com a Pantera Negra.
O título foi decidido numa série melhor de três, somente em abril de 1956. O primeiro jogo, no Durival de Britto, em Curitiba, terminou empatado em 2 a 2, depois de o Cama estar vencendo por 2 a 0. O atacante Cézar Frízio foi o autor dos dois gols da Pantera.
O segundo jogo foi realizado no Estádio Horácio Klabin. Os donos da casa não deram chance ao Ferroviário. Com três gols de Nélson o Cama venceu por 3 a 1 e ficou a um passo do título. A terceira e última partida decisiva foi disputada no Estádio Joaquim Américo, em Curitiba. Novamente Nélson garantiu a vitória do Cama, por 1 a 0, e o título estadual. O atacante ainda foi expulso no segundo tempo.
''O Cama soube dignificar a conquista, com uma campanha brilhante durante todo o campeonato. O Motorzinho ajustou a máquina de jogar futebol, que engrenou e foi até a consagração final'', avalia José Cação Ribeiro Júnior, 77 anos, escritor e auxiliar-técnico vice-campeão paranaense de 55 com o Cama. Ribeiro Júnior é autor do livro ''Histórias do Futebol Monte-Alegrense''.
O jogo de entrega das faixas seria disputado em 31 de abril de 56. A festa foi preparada e os campeões paranaenses receberam a Esportiva Jacarezinho no Estádio Horácio Klabin. Antes de começar o jogo, diretoria e jogadores foram homenageados. Depois, a bola rolou apenas 26 minutos, sem abertura do placar. Uma forte chuva acabou com a festa do título estadual.
No ano seguinte, a Pantera ficou em terceiro lugar no Paranaense. Já em 57, após a decisão da diretoria de não disputar o campeonato, o time profissional foi desmontado. A partir daí, o Cama passou a disputar apenas campeonatos amadores em Telêmaco Borba e na região. Tentou por duas vezes, em 65 e 67, sem sucesso, voltar ao profissionalismo.
Nesses dez anos de futebol profissional, o alvinegro foi um time guerreiro e que deu muito trabalho aos grandes times. Onde quer que fosse o jogo o Cama atraía grande público. ''A gente tinha torcedores em todos os lugares. Em Curitiba, a torcida era maior do que aqui em Telêmaco'', relembra o ex-zagueiro Raul Benvenutti, o Pequeno, 71 anos. ''O futebol que o Cama apresentava era vistoso, colorido e gostoso de se ver. Era maravilhoso apreciar a máquina de jogar futebol, engrenada perfeitamente em suas linhas'', emenda Ribeiro Júnior.

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