Paulo Briguet
O goleiro é o mais solitário dos personagens do futebol. Seu drama começa pela função: evitar o auge do espetáculo. Todo goleiro inconscientemente festeja o zero no placar. Ele é o estraga-prazeres de quem ataca; o último recurso de quem defende.
O guardião da meta depende do brilho alheio. Para todo Gordon Banks, há que se ter uma cabeçada de Pelé. O goleiro sem desafio é como um toureiro sem touro, como um espadachim sem duelista, como uma equação sem x. Quem sai vivo desse embate transforma-se em herói - ou santo.
O goleiro é um absurdo necessário dentro do futebol. No esporte da bola no pé, ele tem o herético poder de abordá-la com as mãos. Para que o número 1 exerça o direito desconcertante, foi criado um território próprio. A grande área delimita em cal as aberrações desse estranho personagem. Nessa teia, o Aranha Negra mostrava seus tentáculos.
Quando o zagueiro derruba o atacante que avançava em direção ao gol, a regra ordena que ele receba o cartão vermelho, caso seja o ‘‘último homem’’. Essa norma contém uma ofensa abominável: por um lapso, tira-se a condição humana do goleiro. Pois ele, sim, é o único e verdadeiro último homem. E sempre o será até o fim dos tempos regulamentares, tentando evitar o inevitável, lutando para impedir aquilo que não tem impedimento.
Eles geralmente não fazem embaixadas, nem driblam, nem chutam a gol, nem lançam com precisão, nem disputam a artilharia. Mas engana-se quem os imagina sem talentos. Apenas têm outras e diferentes qualidades, obtidas por sublimação e persistência: o vôo, a saída, a mão trocada, a ponte, a cera, o soco na bola, o golpe de vista.
Guardas noturnos, motoristas de táxi, operadores de faróis marítimos e goleiros tendem à filosofia. Tornam-se pensadores porque dispõem de algum tempo para pensar - enquanto os ladrões, os passageiros, as tempestades e os atacantes não chegam. Não é impossível que os mais circunspectos arqueiros, aos 44 minutos, questionem a própria natureza do tempo. Daí, o mistério de suas longas carreiras - Manga, Leão, Zoff, Carbajal.
O suposto privilégio de pegar as bolas com as mãos tem um preço com o passar dos anos. Velhos goleiros são donos de mãos marcadas e dedos tortos de labuta. Mesmo com a proteção das luvas e das camisas de manga comprida, boladas deixam marcas para sempre.
A credibilidade é o maior patrimônio do goleiro. Ele vive o suplício de tornar-se centro das atenções quando erra. Não por acaso, lhe entregam a camisa 1. Confiança é algo que também se perde por um lance, um deslize, um desvio. O grande goleiro é aquele que consegue manter essa regularidade por um fio através dos anos. Um frango - todo goleiro, no fundo, sabe - é para sempre. Nada mais melancólico que aqueles dois passos rumo ao fundo da rede, onde a bola repousa calada, quando tudo poderia não ter sido assim.
Confiável ou irregular, herói ou réu, culpado ou inocente, o goleiro é um reflexo de nossas angústias e do nosso medo. Mas também de nossa desforra e da nossa coragem. Basta imaginar o drama do pênalti, quando o goleiro nada tem a perder. Nessa hora, o homem das luvas é um gigante protegendo a meta. A solidão transfere-se para o batedor.
Ao goleiro, resta escolher o canto. Do retângulo da meta, ele poderá sair santificado.

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