O ETERNO RETORNO DO GOL
Paulo Briguet
Heráclito e Parmênides estão nas arquibancadas do Estádio Tres de Febrero, em Ciudad del Este. O garoto entra em campo e dois minutos depois a bola descansa no fundo da rede. O primeiro filósofo diz, sem tirar os olhos do gramado:
- O tempo passa. Não existe um gol igual ao outro.
O outro pensador grego retruca:
- Mas o instante continuará sendo sempre o mesmo. Esse gol é o eterno presente.
A galera se empolga. Parmênides assegura: aquela bola do garoto irá, por toda eternidade, descrever uma curva sobre a cabeça do pobre Rey, como um planeta que gira em torno de si e do Sol mais próximo, como um pêndulo no vácuo, como um tique-taque da catedral.
Na memória de todos aqueles que habitam a galáxia do futebol, a esfera branca repetirá esse atalho em direção ao céu, desafiando uma lei de 9,8 metros por segundo ao quadrado, chegando ao zênite, rendendo-se apenas para cair ao alcance da chuteira.
A pelota, explica Parmênides, será então deslocada com sutileza diante do outro zagueiro, cujos vetores se encaminham inutilmente em sentido contrário.
Até o fim da matéria e a extinção de toda consciência, aquela bola surgirá diante do garoto, dois passos à frente do goleiro Renny Vega. Terminará no fundo da rede, sem perdão, porque perdão não existe em batalhas vencidas. E mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, será gol.
Até o último segundo da última etapa complementar, indicados pelo apito realmente final, o garoto socará (meio sem jeito) o ar, mal acreditando no que acabou de fazer, e verá seus ídolos correndo em direção a ele. No placar de Parmênides, o resultado do jogo será eternamente 5 a 0. Nem mais e nem menos que isso. Na velocidade superior à da luz, dentro do qual aquele gol viverá confinado, o tempo não existe, não passa, não envelhece.
Heráclito não acredita em nada disso. Ele sabe que um rio jamais é o mesmo, e portanto uma partida jamais é igual a outra. O relógio, para Heráclito, é muito mais que um medidor de espaços.
A prova da mudança, diz o velho Heráclito, está no gramado. O juiz vai autorizar o começo de uma nova partida no Estádio Tres de Febrero.
- Vamos ver o que acontece - diz o pensador ao amigo Parmênides.
O tempo passa. O sábado chegou. Indiferente às discussões entre os gregos, o garoto espera sua vez no banco de reservas.





