Rio, 11 (AE) - De um lado, a reverência ao mestre. Do outro, o respeito ao talento. O primeiro encontro do lateral-esquerdo Felipe, do Vasco e da seleção sub-23, e do bicampeão mundial Nilton Santos, ex-lateral-esquerdo do Botafogo e da seleção nas Copas de 1958 e 1962, foi marcado por uma troca recíproca de elogios e de lembranças, algumas recentes.
Os dois conversaram num hotel de Brasília, durante a semana, sobre as virtudes e as dificuldades de jogar pelo lado esquerdo da defesa - segundo Nilton, uma posição ingrata no seu tempo, quando os clubes atuavam com apenas três jogadores na retaguarda. "Era uma sobrecarga de trabalho e a gente não podia ir para o ataque", lembrou. "Se o zagueiro passasse do meio-de-campo, era considerado maluco." Sempre atento às palavras daquele que foi consagrado como a enciclopédia do futebol, Felipe disse ser um jogador de sorte. "Minha vantagem foi nunca precisar marcar o Garrincha", comentou o astro do Vasco. Na verdade, Nilton Santos, que atuou 17 anos pelo Botafogo, só tinha esse trabalho nos treinos do clube. Era uma tarefa árdua. "Acendo todo ano uma vela para o Garrincha", contou ele, emocionado.
Nilton Santos quer eternizar seu convívio com Garrincha e está oganizando um museu do futebol no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. "Uma pequena homenagem a esse gênio". Para Felipe, que aprendeu a driblar no futebol de salão, o ex-ponta-direita da seleção inspirou várias gerações no futebol. O lateral do Vasco admitiu que detesta marcar os adversários e que, a exemplo dos grandes talentos, prefere ser marcado. "Gosto quando não conseguem tomar a bola de mim, quando a escondo." Ambos têm histórias sobre os bastidores que antecedem um jogo importante. Nilton Santos, por exemplo, só entrava em campo despois de conversar consigo diante de um espelho. Ele repetia pausadamente que estava na seleção por mérito próprio e não devia satisfação a ninguém.
"O fundamental é não errar o primeiro passe, para não perder a confiança e a concentração", ensinou Nilton. Já Felipe costuma rezar o terço para diminuir a ansiedade.
Felipe e Nilton Santos enalteceram um ao outro. "Ouvir o Nilton Santos é um aprendizado", observou Felipe. Para o ex-jogador, Felipe tem a sorte de ser habilidoso e humilde - "duas qualidades que nem sempre caminham juntas".

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