Londrina - Seu currículo é um verdadeiro passeio pelo Oriente Médio, onde fez história. Treinou a seleção do Catar, foi campeão da Champions League da África, mas no Brasil não conseguiu emplacar. A história poderia ter sido outra se no caminho dele não tivesse cruzado o árbitro mineiro Márcio Rezende de Freitas. Carlos Roberto Ferreira Cabral, o Cabralzinho, lamenta até hoje a atuação do juiz na final do Brasileiro de 1995. O mineiro validou um gol de Túlio impedido, anulou um legal de Camanducaia e o título daquele ano ficou com o Botafogo.
Aos 63 anos, Cabralzinho acaba de vencer a Copa da Tunísia com o Esperànce. Em entrevista à FOLHA, ele conta um pouco dessa vida pelo mundo. Confira:

Folha: Você ficou mais tempo fora do Brasil do que aqui, como técnico. Como é essa vida?
Cabralzinho: Praticamente estou quase sempre fora do brasil. Comecei essa ladainha em 1984, que foi a primeira vez que fui para o Catar. Fiquei dois anos lá e voltei para o Brasil. Depois de dois anos, voltei ao Catar e dirigi a seleção principal nas Eliminatórias da Copa do Mundo da Itália. Depois, continuei trabalhando no exterior. Sempre que volto para o Brasil encontro muita dificuldade de arrumar trabalho, porque pessoas dizem que eu estou por fora do futebol brasileiro. É curioso que, em 95, eu tinha retornado da Arábia Saudita e o Paulo Autuori tinha retornado de Portugal. Pegamos Santos e Botafogo na rabeira do Campeonato Brasileiro e disputamos o título na final. Imagina se estivéssemos por dentro do futebol brasileiro? Apesar de ter se passado já 12 anos, ainda continuam falando as mesmas coisas, que é uma idiotice muito grande. Com a informática, não se informa quem não quer. Agora mesmo estava assistindo à Record de São Paulo pela televisão.

Algum fator atrapalhou na sua adaptação na Tunísia, como comida, idioma, clima?
Sou muito bem tratado, sou respeitado, tenho o trabalho reconhecido e recebo em dólar. O duro é se adaptar ao Brasil. Dos quatro últimos clubes em que trabalhei só recebi na Justiça do Trabalho. A Tunísia é um país lindo, maravilhoso, fica aqui, coladinho à Europa, principalmente com a Itália. Oferece segurança total. Minha mulher e minha filha, que mora na Suécia, adoram (ele mora só com a esposa). Essa questão da adaptação é um folclore que foi criado por alguns profissionais que não estão a fim de trabalhar ou não sabem trabalhar e pensam que vindo para o exterior vão enganar alguém. Então, quando quebram a cara e percebem que não é bem assim, começam a falar de falta de adaptação.

Você ainda pensa em voltar ao Brasil para trabalhar?
Sinceramente, não tenho vontade de trabalhar no Brasil novamente. O que existe é uma grande enganação, uma grande festa em torno de figuras pitorescas, tachadas de maiorais, de gênios. E que a gente, do futebol, sabe que não é assim. Futebol é simples. Hoje a força do marketing eleva um cidadão desconhecido para a fama e essas pessoas passam a viver com essa fama sem ter nunca conseguido um currículo consistente, concreto.

Como você avalia o trabalho do Dunga na Seleção Brasileira?
Olha, o Dunga é uma repetição do equívoco histórico no comando da Seleção Brasileira. Nós já tivemos isso no início dos anos 90, com o Falcão, e esse exemplo não serviu para nada. O Falcão, como jogador, foi fantástico. Como pessoa também, mas não era treinador. Na hora de se eleger um técnico para a Seleção, demonstra-se que não têm um mínimo critério e chamaram o Dunga. Agora, o País inteiro quer usá-lo como bode espiatório. Ele não tem culpa. Colocaram ele ali. Tem um passado como pessoa, como jogador intocável, mas técnico não.

Você ainda guarda alguma mágoa sobre a final de 95?
A gente sente até hoje uma grande decepção. A sensação que tenho é que arrancaram parte de mim. Assumi o Santos na quarta rodada, o time era o penúltimo e chegamos na final. Mas nada disso foi respeitado. Falou mais alto os interesses pessoais, vaidades e nos foi tirado o título da maneira que o Brasil viu.

Você conversou com o Márcio Resende de Freitas depois?
Dois dias depois da final, consegui o número do fax onde ele trabalhava. Eu passei um fax dizendo que não deveria se sentir culpado porque errou e que eu não achava que aquilo tinha sido feito com nenhuma má intenção. Mas uma pessoa que não se dignou a responder esse fax, se escondeu durante dez anos tentando negar o óbvio, acho que não merecia um cumprimento da minha parte. Hoje ele admite o erro, mas nunca conseguirá avaliar o tanto que me prejudicou e aos outros que estavam lá comigo.

Como foram suas últimas passagens pelo Brasil?
No final de 2001, eu treinava o Santos e o presidente Marcelo Teixeira disse que renovaria meu contrato. Preparei todo o planejamento para a temporada seguinte, relacionei na época para integrarem o departamento de futebol profissional os jogadores Diego e Robinho. Com o não cumprimento da renovação do meu contrato, outros treinadores se vangloriam de tê-los descobertos. Não que eu os descobri, eu os relacionei para o profissional porque já os tinha observado no juvenil. Depois disso ainda passei pelo Figueirense, em 2002, e por dois meses no Confiança-SE, em 2006, para atender a um pedido de um amigo.

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