Paulo Briguet
O que os Ronaldinhos da Seleção têm em comum, além do nome? Os xarás ostentam generosas duplas de dentes frontais. São atacantes e, portanto, vivem com fome de gol. Despontaram para o estrelato muito jovens. O Ronaldinho do Grêmio Portoalegrense, 19 anos, promete entrar logo na onda do Ronaldinho da Internazionale de Milão, 23 anos, raspando o cabelo na máquina zero.
Resta saber, nos gramados da Copa América, se as semelhanças param por aí. Ontem, na concentração do Brasil, foi o dia de Ronaldinho, o mais jovem. O atacante foi o último jogador a integrar a delegação brasileira em Foz. Ele substituiu Edílson, do Corinthians, cortado pelo técnico Wanderley Luxemburgo. Centro das atenções, Ronaldinho ouviu dezenas de vezes a mesma pergunta:
- Como você prefere ser chamado em campo?
E a resposta repetida foi:
- Eu vou atender como me chamarem.
Ficou convencionado pela Seleção, pelo menos até agora, que o Ronaldinho do Grêmio continuará Ronaldinho. O atacante da Inter perderá o diminutivo, tornando-se apenas Ronaldo, como já é chamado na Itália.
As especulações sobre mudanças não ficam apenas nos nomes. Com os problemas físicos de Ronaldo, que o tiraram do treino da manhã ontem, o xará gaúcho pode ter uma oportunidade de ouro: jogar no ataque da Seleção Brasileira. Ele já defendeu a camisa amarela nas categorias de base, mas se surpreendeu com a convocação:
- Quando me avisaram, achei que era brincadeira. Só depois que o presidente do clube me chamou, e o pessoal foi me cumprimentando, eu vi que era sério.
Voz mansa e baixa, brinco na orelha, aspecto franzino, Ronaldinho enfrentou pacientemente o assédio da imprensa. A torrente de entrevistas é uma situação inédita para ele.
- Eu sabia que era assim, mas a gente estranha um pouco.
Com 15 gols em 16 jogos no Campeonato Gaúcho deste ano, inclusive o gol do título, Ronaldo de Assis Moreira se tornou ídolo da torcida gremista. Ele tem contrato com o Grêmio até março, e não descarta a possibilidade de jogar em clube estrangeiro. ‘‘Mas agora só quero pensar em jogar tudo na Seleção’’, garante.
Ele é irmão do meia-esquerda Assis, 27 anos, que jogou no Grêmio e em clubes europeus. Hoje, Assis atua no futebol japonês. ‘‘Aprendi muito com meu irmão’’, conta. A maior lição do irmão, segundo Ronaldinho, foi manter a humildade. Algo importante para quem hoje pode jogar ao lado do ídolo: ‘‘O Ronaldo é o melhor do mundo, meu ídolo desde os tempos em que ele jogava no Cruzeiro e eu estava no infantil. Aqui na Seleção, quero me entrosar com o grupo, treinar forte e crescer como jogador.’
Na segunda-feira, quando desembarcou em Foz, Ronaldinho começou nova fase em sua carreira. Foi recebido pelo companheiro de quarto, Émerson, conversou um pouco com a comissão técnica, jogou videogame, entrou no clima da concentração do Brasil. Agora, resta a ele a chance de mostrar que as diferenças entre os dois Ronaldos são menores que as diferenças entre uma Ferrari e um Fiat Marea. Nem é preciso dizer a que xará pertence cada carro.

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