O contador de histórias
Enfrentou Pelé (''O Negão deu uma maneirada contra o São Bento, porque pediram para ele), viu Garrincha fazer um lateral do Corinthians de gato-e-sapato. Mas um papo com Zeferino rende mais que relatos sobre mitos.
''Sempre quis ser goleiro. Achava a roupa bonita''. Vaidade. ''Gostava de ser o primeiro a sair do túnel, a torcida começar a aplaudir, ver o VGD lotado''. Orgulho. ''Uma vez, jogando pelo Corinthians, contra o Fluminense, no Maracanã, o Escurinho cobrou o escanteio, dei um tapa e a bola caiu dentro do gol. Um frangaço. Se tivesse um buraco no gramado, eu entrava dentro''. Vergonha.
Zeferino Pasquini é um boa praça que viveu todas as emoções do mundo do futebol. Viveu intensamente a Londrina dos anos dourados (''Era a maior zona do Brasil!''). Resgata a juventude, durante a pré-revolução sexual, onde os treinos eram assistidos por belas garotas, quase as donas da cidade na corrida ao ouro verde.
''A gente já saía acompanhado do campo. Elas faturavam com os ricaços à noite e a gente pegava umas matinês de graça''. Tempos inesquecíveis. ''Tinha a Selma, a Diana. Tinha umas casas boas. Tinha revezamento de mulher. Chegava um vôo da Varig e enchia a cidade de garotas novas. O plantel nunca era o mesmo'', brinca, saudoso. ''Os jogadores aproveitavam pra caramba. A gente era chamado para tudo quanto é festa''. Quarenta anos depois, Zeferino gaba-se de sua saúde e de suas atividades extra-campo e diz que faria tudo de novo. ''Gastei muito, mas também aproveitei bastante''.
Ado, o goleiro que era seu reserva e que aproveitou uma suspensão sua para fechar o gol do LEC nos últimos jogos do Paranaense de 1969 (depois foi negociado com o Corinthians e logo chegou à seleção), era uma de suas vítimas preferidas. ''Quando ele vinha aqui, mandava as crianças comprar figurinhas dele e ainda não existia. Aí eu dizia: cadê o famosão? Ele ficava muito bravo''. Quando Ado voltou do México e teve recepção de rei na prefeitura teria dito o seguinte: ''Seu filha da mãe, eu quero mostrar uma coisa para você''. Abriu uma mala, com Cr$ 100 mil, o prêmio pela conquista da Jules Rimet. ''Este dinheiro é teu, né''. Zeferino diz que ficou calado.
Zeferino recorda do jogo de master que lotou o Café em meados da década de 80. Os veteranos do LEC enfrentaram ex-craques da seleção brasileira. ''Tomei o gol de cobertura de Rivelino. Logo depois da saída, nós perdemos a bola e o Riva, de novo, recebeu um lançamento, cruzou e o Romeu Cambalhota fez de carrinho. Tomei dois gols em um minuto''. Zeferino usou a ironia para mostrar seu desespero. ''Falei para o juiz que se ele não parasse o jogo, eu sairia do jogo''. O revés rendeu. ''Fiquei um ano ouvindo desaforo. Não podia andar mais no Calçadão''. (L.F.M.)





