Valmir Denardin
Conhecido por sua participação política, Sócrates, capitão da Seleção Brasileira na Copa de 82, acredita que o jogador de futebol brasileiro precisa ampliar sua atuação social. ‘‘É um político com mandato sem ter sido eleito’’, compara o ex-meia do Corinthians, em entrevista exclusiva à Folha. ‘‘É preciso saber usar isso e fazer alguma coisa pelo País.’’
Para Sócrates, ao deixar a Seleção de Luxemburgo, o meia Leonardo teve a intenção de mostrar que os jogadores precisam ter uma atuação mais vinculada à realidade. Sócrates está em Foz do Iguaçu, atuando na Seleção Brasileira que disputa o Torneio Sul-Americano de Six Soccer (Futebol de Seis), um evento paralelo à Copa América. ‘‘É um jogo interessante, parecido com o futebol de salão’’, define. ‘‘Aqui, estou jogando só cinco minutos, porque estou fora de forma. Atualmente estou jogando só xadrez’’, afirma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, concedida no domingo, no Hotel Mabu, onde o ex-jogador está hospedado.
Folha - O que foi a Democracia Corintiana?
Sócrates - Aquele movimento baseou-se no fato de que conseguimos espaço para gerir as nossas vidas enquanto profissionais. Podemos defini-lo como uma autogestão. Cada um tinha seu espaço, sua função. Só que todos decidiam coletivamente aquilo que era coletivo. Éramos um grupo pequeno mas, como vivíamos no momento em que a sociedade lutava pela redemocratização do País, aquilo, por ter acontecido em uma estrutura popular, se tornou uma referência na luta pela mudança política. A idéia era deixar de lado o paternalismo que sempre imperou no futebol - e que até hoje existe - para que as pessoas envolvidas assumissem seu papel, inclusive como cidadãos. Por exemplo: estabelecíamos os bichos (premiação por vitórias) por produtividade, com base na arrecadação do clube.
Folha - Como você analisa a atitude do meia Leonardo, que abandonou a Seleção Brasileira alegando, entre outras coisas, que a equipe dá pouca ênfase ao lado social?
Sócrates - Pouca gente quis entender a saída do Leonardo. Ela teve uma base política claríssima. O que ele colocou foi isso: estamos dentro de uma estrutura que é extremamente popular no País e não fazemos nada. O projeto pessoal dele era mobilizar os jogadores da Seleção para realizar alguma coisa. Essa declaração do Leonardo foi a única coisa interessante que ocorreu no futebol brasileiro nos últimos quinze anos.
Folha - A reação de Leonardo foi motivada pela falta de espaço para esse tipo de discussão dentro da Seleção?
Sócrates - Há espaço. Mas, para você ver como o sistema é reacionário, a interpretação da mídia sobre o que ele colocou foi sempre negativa e afastada do foco da questão. Ficou sendo uma coisa pessoal e limitante, quando era política. Mas o País, infelizmente, está distante de aproveitar seus melhores momentos.
Folha - Como pode se dar a atuação social e política de um jogador de futebol?
Sócrates - O jogador de futebol no Brasil tem mais espaço do que o presidente. É preciso saber usar isso, visualizar uma oportunidade e fazer alguma coisa pelo País. O ‘‘como’’ depende de cada um. Mas ele precisa participar mais. É um político com mandato sem ter sido eleito.
Folha - Ao deixar a Seleção, Leonardo insinuou que não teria o espaço necessário para essa participação política no time de Luxemburgo. Você concorda com isso?
Sócrates - Na Copa de 82 eu fui capitão. Na de 86, eu não era o capitão. Mesmo sendo um jogador comum, tive que criar uma ação política. Em todos os jogos da Copa usei uma faixa na cabeça com mensagens políticas. Aproveitei um espaço fundamentalmente usado pelo grande capital para uma questão sociopolítica. Mesmo sem ser capitão, o Leonardo poderia ter uma atuação política.
Folha - Como você avalia a atitude de jogadores como Taffarel, Aldair e o próprio Leonardo, que abriram mão de integrar a Seleção Brasileira?
Sócrates - São causas distintas. Sobre o Leonardo, nós já falamos. No caso de Taffarel e Aldair, são pessoas que estão há muito tempo jogando na Seleção, onde o grau de exigência é extremamente grande. É cansativo, com períodos longos de concentração. Talvez para os dois, não existe, nesse momento, nenhuma perspectiva. Eles iriam perder seu período de férias, o contato com a família, ganho nenhum. Já o moleque que está iniciando agora precisa jogar na Seleção para fazer currículo.
Folha - Vestir a camisa da Seleção hoje perdeu a mística para os jogadores?
Sócrates - Não. A referência esportiva da nação é a Seleção Brasileira. Obviamente, se você expõe demais qualquer produto, ele se desgasta.
Folha - Como você avalia a equipe da Copa América?
Sócrates - É cedo para avaliações. Mas temos bons jogadores e devemos ganhar. Até porque os argentinos, que seriam os grandes adversários, não estão interessados. A Copa América, se fosse para existir, deveria ser de quatro em quatro anos, e não de dois em dois. Já não vale muita coisa, e fazer de dois em dois anos é um absurdo.
Folha - E sua avaliação sobre Luxemburgo?
Sócrates - O acho competente como treinador. Mas prevejo que ele terá dificuldade de relacionamento. Ele passa uma imagem arrogante, negativa, mas a relação que ele cria com seus atletas desmente isso. Em clube, você consegue contornar isso, pela convivência diária. Na Seleção é mais complicado, porque você sempre tem um time diferente, com pessoas que pouco se conhecem. Provavelmente você vai criar algum tipo de conflito. Não sei como ele vai tratar isso.Expoente da Democracia Corintiana, ex-craque da Seleção diz que mídia deu enfoque errado a uma atitude claramente política
Ney de SouzaSócrates em Foz do Iguaçu, onde disputa o Sul-Americano de Six Soccer: ‘Declaração de Leonardo foi a única coisa interessante que aconteceu no futebol brasileiro nos últimos 15 anos’

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