Quem é o melhor atleta do século: Pelé ou Michael Jordan? A questão dominará a travessia do milênio. E o que é mais gostoso: sem solução. Pelo menos, nos termos em que está posta a discussão. Ninguém jogou futebol tão bem quanto Pelé. Maradona alcançou momentos de Pelé, no Mundial de 86. Eusébio chegou muito perto de Pelé, no Mundial de 66. Cruyff deslumbrou o mundo, em 74. Todos, porém, passados os instantes de majestade, logo tornavam a ser o que sempre foram: notáveis jogadores, sim, mas sem a luz absoluta de Pelé. Ainda não nasceu - e tardará em nascer - alguém capaz de fazer sombra a Pelé, a quem, como já escrevi, até a bola do jogo pedia autógrafos antes e depois de cada jogo. Jordan, como Pelé, entra na história esportiva do século com uma trajetória de rastros eternos. Ambos vieram ao mundo com o dom da permanência.
O diabo é na hora de montar o cotejo. Não há coeficiente de conversibilidade entre Pelé e Jordan. Futebol e basquete só se assemelham numa coisa: são jogos coletivos em que entra uma bola. Por sinal, as respectivas bolas nada têm em comum, a não ser que ambas quicam e pertencem à família das esferas. No mais, são água e vinho. Melhor, ainda, são vinho e champanhe.
Quem gosta mais de futebol que de basquete dirá, sempre, como disse a brilhante Bárbara Gancia: ‘‘Jordan não chega aos pés de Pelé.’’ É verdade. Em compensação, quem gosta mais de basquete que de futebol dirá que ‘‘Pelé não chega às mãos de Jordan.’’
Não dá para fazer comparações entre os dois. A menos que se pudesse converter gol em cesta, cabeçada em enterrada, passe em assistência. Aliás, parênteses: nada mais impróprio que empregar assistência como sinônimo de passe. Fecha parênteses.
Reúne-se, então, o júri pra escolher o melhor do século. Vem a primeira pergunta: quantas cestas fez o Pelé? E a segunda: quantos gols marcou o Jordan? A conta não fecharia jamais.
Não vale, pois, perguntar quem é o melhor do século. Vale, sim, escolher, não o melhor, e sim, o maior do século. O mais universal. O que alegrou o maior número de criaturas humanas, antes e depois da televisão planetária. Feliz de quem é uma estrela na galáxia do futebol. E, nesse ponto, no plano da amplitude, da popularidade, de notoriedade, Jordan talvez não supere nem mesmo o seu compatriota Carl Lewis, cuja história gloriosa principia nos Jogos Olímpicos de 84, em Los Angeles, com a medalha de ouro do homem mais veloz do mundo. Lewis reinou no atletismo durante cerca de vinte anos, quatro olimpíadas e nada menos de dez medalhas, de ouro e prata. Um atleta colossal, idolatrado nos quatro cantos do mundo.
Não cabe discussão: o maior atleta do século XX é Pelé. Há de ser escolhido por aclamação celestial. Tenho tal convicção desde o dia em que vi, há muitos anos, na primeira página do jornal The Observer, de Londres, uma foto com a seguinte legenda: ‘‘Pelé e um fã.’’
O fã era o Papa.
A gafe de Havelange
Ricardo Teixeira me manda, de Miami, por um amigo, um esclarecimento sobre o mal-estar causado pela ausência de João Havelange na homenagem a ele prestada pela CBF: assegura ele que a festa só foi oficializada depois que Havelange, em fax à CBF, não só escolheu a data como fez, de próprio punho, a relação dos amigos que gostaria de ver no jantar.
Pela versão do presidente da CBF, pode-se concluir que Havelange mudou de idéia, desistiu do rapapé, mas não teve o zelo de avisar. Só avisou aos amigos queridos. Podia ter poupado todo mundo de um tremendo constrangimento. O ministro Greca, o governador Garotinho e o prefeito Conde não mereciam a descortesia de ficar uma hora de relógio, em pé, com cara de tacho, na porta do Copacabana-Palace, à espera de um homenageado que não apareceu, nem deu a menor satisfação a ninguém.
De outra parte, que não Ricardo Teixeira, fiquei sabendo que, até as 3 horas da tarde da homenagem, João Havelange pretendia estar presente. A pressão familiar, porém, foi mais forte e o homem acabou dando o dito pelo não dito.
Rápidas e rasteiras
- Guga começa 99 sob as bênçãos de um primeiro serviço arrasador: 80% de aproveitamento, com uma saraivada de 58 aces no começo da temporada. O título de duplas e a vitória contra o inglês Rusedski, em Sidney, indicam um ano radioso para o nosso Guga.
- A dupla Roberto Assaf e Clóvis Martins volta a atacar. Depois da deliciosa viagem sobre os Campeonatos Cariocas, eles lançam no dia 19 de janeiro, a partir das oito da noite, na Livraria Letras & Expressões, na Rua Visconde de Pirajá, 276, em Ipanema, ‘‘Fla-Flu, o Jogo do Século’’. O livro tem prefácio de Sérgio Noronha e quarta capa de Fernando Calazans.
- A campanha dos cariocas na Copa São Paulo lembra o pífio desempenho dos profissionais no Campeonato Brasileiro. Exceto o Vasco, que faz trabalho sério em todas as divisões, os outros fracassaram. Está certo que Botafogo e Fluminense tiveram que promover jogadores aos times de cima, mas, ainda assim, o Rio decepciona.
- A frase da despedida é de Matinas Suzuki: ‘‘Michael Jordan é o único homem mais leve que o ar.’’

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