Berlim - Felizmente, os deuses do futebol resolveram rever seus planos, já que, no dia 23 de junho, estiveram prestes a cometer uma das grandes injustiças da história. Zinedine Zidane, o maior jogador da França em todos os tempos, para muitos o grande craque da última década, anunciara que encerraria sua brilhante carreira após a Copa.
Naquela data, suspenso por ter recebido dois cartões amarelos, ele acompanhou, angustiado, a partida em que a seleção francesa enfrentou Togo, precisando de uma vitória por dois gols de diferença para continuar no Mundial. Depois de um 0 a 0 nos primeiros 45 minutos, a França deslanchou, venceu por 2 a 0 e deu ao seu astro a oportunidade de uma bela despedida.
Zidane, que completava 34 anos exatamente naquele dia, retribuiu em grande estilo. Brilhou contra a Espanha, deu show diante do Brasil e fez o gol da vitória sobre Portugal. Hoje, às 15 horas, na sua derradeira apresentação, o craque estará à frente de seus companheiros na grande final contra a Itália, no mítico estádio de Berlim. Este sim, um desfecho à altura de sua história e de seu talento, independentemente de quem dê a volta olímpica.
Os italianos conhecem bem este francês, filho de argelinos. Durante quatro temporadas, Zidane brilhou com a camisa do Juventus. Portanto, dificilmente cometerão os mesmos erros de Espanha e, principalmente, Brasil: deixar o camisa 10 livre. Sem ninguém a importuná-lo, Zidane fez o que quis em campo.
''Graças a Deus eu jogo a seu lado. Foi um dos grandes prazeres e talvez a maior honra da minha carreira'', elogiou o zagueiro Thuram, também de 34 anos, velho companheiro de Zidane na seleção.
Do mais velho ao mais novo, todos se sentem honrados de fazer parte do time do grande jogador. O atacante Govou, por exemplo, não entende por que estão todos admirados com o nível do futebol que Zidane tem apresentado: ''O que ele faz nos jogos, faz também nos treinos. Sua experiência e seu talento trazem confiança para a equipe''.
O craque francês atingiu tal status que sua simples presença é suficiente para atrair as atenções. Até mesmo os adversários o reverenciam. Após a derrota do Brasil para a França, nas quartas, Robinho deu um longo abraço no companheiro de Real Madrid. Natural para um garoto de 21 anos que teve o privilégio de atuar ao lado do astro.
E quem tenta tripudiar de Zidane, paga caro. Que o digam os espanhóis. Após uma temporada apagada no Real Madrid, havia uma grande desconfiança sobre o que o camisa 10 poderia fazer no Mundial. No dia da partida entre França e Espanha, pelas oitavas-de-final, a imprensa espanhola publicou várias reportagens anunciando que aquele seria o último jogo do craque. Acabou sendo, isso sim, o fim dos espanhóis. O jogador teve grande atuação, fechou a vitória de 3 a 1 com um golaço e mandou a Espanha para casa.
Extremamente reservado, ele raramente expõe sua intimidade. Há poucos dias, foi flagrado por uma câmera indiscreta fumando um cigarro dentro da concentração francesa, em Hamelin. Ninguém ousou criticá-lo. ''Zidane é um líder natural. Sua simples presença em campo já conta ponto a favor da França'', afirma o lateral Sagnol, mostrando bem a dimensão do carisma do jogador.
Hoje está claro que Zidane se guardou para ter uma despedida em grande estilo. Nem precisava. Seu currículo era mais do que suficiente para que fosse direto para a galeria dos grandes craques do futebol no dia seguinte em que pendurasse as chuteiras.
Ganhou uma Copa do Mundo, duas Copas das Confederações, um Campeonato Europeu de Seleções, três títulos de melhor jogador do mundo e incontáveis campeonatos pelas equipes que defendeu Cannes, Bordeaux, Juventus e Real Madrid. Superou dentro de campo Platini, até então a maior lenda do futebol francês. Mas, antes de se retirar, Zidane quer o que poucos jogadores conseguiram até hoje, o segundo título mundial: ''Temos um compromisso com nós mesmos. Se tivermos que morrer, que seja juntos''.
Uma coisa é certa: ganhando ou perdendo, Zidane seguirá vivo na memória de quem teve o prazer de vê-lo jogar.

mockup