NOVA SANTA BÁRBARA - Quenianos mudam rotina e incentivam crianças
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domingo, 13 de novembro de 2005
Jaime Kaster<br>Reportagem Local 
A cena por si só já é curiosa. Numa cidade de 4 mil habitantes, com cara de distrito, onde a prefeitura e a avenida principal ficam a 500 metros da lavoura mais próxima, e onde as crianças andam pela rua em meio a tratores, um grupo de seis atletas quenianos que só falam o inglês e o swahili (idioma local) correm todo dia de manhã e à tarde, chamando a atenção por onde passam.
A curiosidade dos pacatos habitantes da localidade já foi maior, quando chegou, em 2003, o primeiro grupo de quenianos que vêm utilizando as estradas rurais do município de Nova Santa Bárbara (70 km ao sul de Cornélio Procópio) como base de treinamento para maratonas nacionais e internacionais.
''Hoje a gente já está mais acostumado, mas logo que chegaram, todo mundo queria ver eles correndo e falando naquela língua diferente (o swahili). Era muito engraçado'', lembra o garoto Rafael Santos da Silva, 13 anos. Segundo ele, o que mais chamava a atenção entre os visitantes ilustres era a fisionomia diferente da dos negros brasileiros. ''Eles são magrelos e mais escuros'', compara Rafael.
Espelhado no exemplo dos africanos, Rafael conta que também decidiu treinar atletismo quando foi implantado um projeto social na cidade, em 2002, pelo técnico Moacir Marconi, o Coquinho atual diretor do Departamento de Educação Física do município e também treinador dos quenianos. Embora confesse que gosta de jogar bola, Rafael considera o atletismo interessante e corre provas de meio-fundo para crianças percursos de até 3 quilômetros.
No momento, os queninanos que estão treinando com Coquinho são Margaret Karie, 25 anos, Elijah Yator, 24, Cyrus Kataron, 24, Charles Korir, 25, Josephine Kimaiyo, 30, e Anne Bererwe, 24. Entre as provas já venceram estão as maratonas de Ostend (Bélgica), de La Rochelle (França) e de São Paulo, e pódios nas meias-maratonas do Rio e de Salvador. De acordo com o treinador, todos são atletas em desenvolvimento, ''mais disciplinados que os brasileiros'' e que ''deverão obter resultados cada vez melhores, aqui e no exterior''.
A principal meta de Margaret, por exemplo, é vencer a Maratona de Los Angeles (EUA), no ano que vem. Para isso está se preparando intensivamente e disputando provas preliminares no Brasil. Hoje, por exemplo, estará em Uberlândia (MG), junto com Elijah, correndo a Meia-Maratona do Cerrado. Enquanto isso, os outros quatro estarão divididos entre a Corrida da USP, em São Carlos (SP), e a Maratona Internacional de Curitiba.
Esta última prova, aliás, tem como atual campeão outro fundista treinado por Coquinho e que mora com os quenianos em Nova Santa Bárbara: Rildo Alves dos Santos, 36 anos, ex-atleta do Cruzeiro. Para melhor se comunicar com os africanos e orientá-los nos treinamentos, Santos vem fazendo um curso intensivo de inglês no município vizinho de Santa Cecília do Pavão.
Além dele, a esposa de Coquinho, Helena Marconi, também trabalha como assistente-técnica da equipe e viaja com os atletas para as provas. Este é o nono grupo de quenianos que está treinando na cidade. Os primeiros chegaram em 2003 e após um período morando aqui, retornam ao Quênia.


