O Norte Pioneiro deve ter mais uma temporada sem futebol profissional. Em um momento onde a força do interior está em evidência, com Operário, de Ponta Grossa, campeão paranaense; e Maringá, vice; uma região que já foi destaque na modalidade vive um período de ostracismo em competições federadas.

Desde que o PSTC migrou de Cornélio Procópio para Alvorada do Sul, em 2022, o Norte Pioneiro não tem uma equipe de futebol profissional em atividade. Pior, é a projeção de que esse hiato na verdade seja uma nova realidade – entre os times previamente confirmados para disputa da segunda e terceira divisões do estadual não há representantes da região.

O contraste com o passado é grande. Matsubara, de Cambará, União Bandeirante, de Bandeirantes, e Platinense, de Santo Antônio da Platina, se alternaram com 9 de Julho e Comercial, ambos de Cornélio Procópio, na elite do futebol paranaense no século passado.

HISTÓRIA

Se faltaram títulos de expressão, sobrava paixão. Conquista de relevância mesmo, apenas o Campeonato Paranaense no longínquo 1961, vencido pelo Comercial.

Mas paixão não faltava. Foi o sentimento que levou a torcida do Matsubara a construir com as próprias mãos um estádio para o time. Que fazia a Platinense ter força para criar fama de carrasco dos grandes da capital quando jogava em casa. E que impulsionou o União Bandeirante a bater clubes com orçamento muito maior e chegar a cinco finais do Paranaense.

Isso muito em virtude da capacidade dos times locais em garimpar jovens talentos e revelar atletas que posteriormente tiveram carreiras de sucesso, vários com passagens marcantes em grandes clubes do Brasil e do exterior e até pela seleção brasileira.

Considerado referência em categorias de base e formação de atletas nos anos 1980, o Matsubara atraía jovens de todo o Brasil, que buscavam uma vitrine. Dali saíram nomes como o zagueiro Toninho Carlos (Santos e seleção brasileira) e Newmar (campeão mundial com o Grêmio), o meia Jean Carlos (Palmeiras) e os atacantes Carlos Alberto (Coritiba e Botafogo), Djalma Bahia (que faleceu em acidente automobilístico quando defendia a Portuguesa) e Nilmar (Inter, Villarreal, Corinthians e seleção brasileira), entre tantos outros.

No União Bandeirante foram revelados os atacantes Paquito e Tião Abatiá, dono de enorme sucesso defendendo o Coritiba, o atacante Brandão (ídolo no futebol ucraniano) e o goleiro Fábio, recordista de partidas no futebol brasileiro e campeão da Libertadores pelo Fluminense, além de contar com passagens por Cruzeiro e seleção brasileira. Isso só para citar os casos de maior sucesso.

Já a Platinense, entre os nomes de maior relevância, lançou o meia Marquinho Ferreira (Coritiba, Paraná e Bahia), os volantes Valdir (Athletico e seleção brasileira) e Fabinho (Corinthians) e os atacantes Nilson (Internacional) e Claudinho (Pinheiros).

Isso para não citar as gerações dos anos 50 e 60 de Comercial e Esportiva Jacarezinho, de onde também saíram jogadores que trilharam carreira em times de maior expressão na época.

Os tempos, contudo, mudaram. O futebol passou a demandar cada vez mais investimentos. E a sobrevivência em municípios do interior ficou quase que inviável. 9 de Julho e Comercial, ainda no começo dos anos 90, foram os primeiros a sentir esse reflexo e paralisaram as atividades.

Na sequência foi a vez da Platinense e não demorou para União Bandeirante e Matsubara, ainda no fim dos anos 90 começarem a conviver com rebaixamentos e crises financeiras. Entre as décadas de 2000 e 2010 todos saíram definitivamente de cena.

O bancário e colecionador de conteúdos relacionados a futebol, Gilson Matiazzo, é uma espécie de historiador informal do futebol do Norte Pioneiro, inclusive postando histórias, fotos e diversos materiais sobre o tema em suas redes sociais e conseguindo bastante repercussão.

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Morador de Jacarezinho, Gilson relembra o sucesso dos times, muitos dos quais pôde acompanhar pessoalmente em municípios vizinhos. “Eu ia pra Cambará assistir jogos do Matsubara só para ver o Toninho Carlos, que foi o melhor zagueiro que eu vi jogar”, relembra.

“Os times eram formados de acordo com a riqueza na região. Foi assim com a Esportiva Jacarezinho na década de 30, na época do café, por exemplo. Depois tivemos a Agroceres, que se tornou a Platinense, assim como o União Bandeirante e o Matsubara”, relembra. Todos vinculados diretamente a atividades agrícolas e dependentes dos recursos dos negócios de seus proprietários. “Mas fazer futebol hoje em dia ficou muito caro e ninguém quer investir em algo que não dá retorno imediato. Então se nas capitais já é difícil, imagina no interior”, analisa.

SAUDADE

O que resta para todos que desfrutaram dessa época é a saudade. E, claro, muitas histórias, que hoje andam de mãos dadas com o imaginário popular - tão próximas que a essa altura já fica impossível dissociá-las.

Será verdade que Serafim Meneghel, folclórico dirigente do União Bandeirante, deu um tiro em uma bola já na marca da cal após a marcação de um pênalti contra seu time? Uma cobra gigantesca invadiu mesmo o gramado do José Eleutério causando pânico nos jogadores e paralisando uma partida da Platinense?

Antigo funcionário da Usina Bandeirantes, que patrocinava o União, o aposentado Irineu Fonseca relembra com carinho o período que acompanhou de perto o time. “Cheguei a ver jogo de dentro do campo, do banco de reservas, a convite do Serafim Meneghel. Era uma época de ouro. Nossos times aqui da região não ficavam devendo para nenhum outro time do Estado”, recorda. “Eu estava presente no dia da história do tiro na bola e realmente não lembro disso. Sei que teve confusão e sei que o Serafim tinha um amor muito grande pelo time e fazia de tudo para defender quando se sentia prejudicado”, completa.

Mas quem liga para o nível de veracidade deste ou aquele causo? Deve existir alguma licença poética para torcedores de times que não existem mais. Afinal de contas, esse saudosismo, embalado por memórias com ou sem variações de seus enredos originais, é uma das poucas alegrias ligadas aos clubes que ainda se mantém viva e devidamente na ativa.

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