Nomes de barcos contam história
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sábado, 08 de abril de 2000
Por Julio Cruz Neto 
São Paulo, 9 (AE) - São Martinho, São Gabriel, São João... Na época da expansão marítima, as naus portuguesas costumavam receber nomes de santos, algo que não acontece na Regata do Descobrimento. Conheça o significado e a razão dos nomes de alguns barcos que estão na fase final dessa travessia comemorativa dos 500 anos da viagem de Pedro álvares Cabral - inclusive do Cisne Branco, navio-veleiro da Marinha que leva a bordo a nossa reportagem.
Cinco séculos atrás, na fase de transição da Idade Média para a Idade Moderna, a Europa vivia sob forte influência da Igreja Católica - tanto que foi junto ao papa Leão X que a coroa portuguesa conseguiu autorização, através de bula papal, para pôr em prática o comércio de escravos africanos.
Outro exemplo: em 1517, os portugueses resolveram levar nada menos que um rinoceronte, capturado em uma das expedições à áfrica, de presente para o mesmo pontífice. Só que o animal acabou morrendo num naufrágio, perto de Veneza. Além disso, os relatos dos tripulantes das viagens daquela época deixam claro que a devoção a Deus era grande.
Assim, é facil entender por que os navios antigos tinham nomes de santos. Quanto ao de Cabral, alguns historiadores acreditam que tenha sido a nau São Gabriel, a mesma com a qual Vasco da Gama chegara à Índia dois anos antes. Mas é um incógnita.
Hoje isso não acontece. Dos veleiros que agora se dirigem para Salvador, há o Santa Cruz e o Santa Tereza, além do Ave Maria. Os outros nomes apresentam grande variedade de origens, com destaque para o tupi-guarani, exatamente o idioma que os santos navios começavam a descobrir naquela época.
Corumii e Aysso são dois exemplos. Aysso é o veleiro da Família Schurmann, que está terminando uma volta ao mundo de dois anos e meio e estará em Porto Seguro no dia 22, junto com o resto da flotilha.
Vilfredo Schurmann, o patriarca, conta que o significado é belo formoso, em tupi. Já Corumii, explica o comandante Luiz Alberto Ballarin, significa garoto: "O segundo i indica diminutivo. É um nome que me acompanha desde meu primeiro barco, quando eu tinha 12 anos." No caso do Paratii, o segundo i não tem este significado. O comandante Amyr Klink conta que a idéia era registrar com um único i, para homenagear a cidade que ele adotou desde pequeno: "Mas não deixaram exatamente por causa do nome da cidade." E a primeira idéia que lhe veio à cabeça foi dobrar a última letra.
Quanto ao FIA, do velejador solitário André Homem de Mello, trata-se de uma versão caipira de filha. André escolheu esse nome quando morava nos Estados Unidos, onde "um ditado diz que barco tem de ser feminino". Embora não tenha filhos, André resolveu dar esse nome porque o barco também requer cuidado e dá despesa. Ele nasceu em Campinas e criava gado antes de se mudar para o mar - daí o lado caipira. Nos Estados Unidos, André diz ter conhecido um velejador cujo barco se chamava Plan B (em português, Plano B): "O Plano A dele era casar, ter filhos. Como não deu certo..." Comandante do Hozhoni, Marcelo Jaensch conta que aprendeu essa palavra num livro de inglês da escola. E que simboliza a união das forças da natureza com o pensamento sadio do homem, para os índios que habitam o Grand Canyon, nos Estados Unidos: "O veleiro se enquadra nisso." Cisne Branco é o subtítulo da Canção do Marinheiro, tradicional música militar cantada dia sim dia não a bordo, quando o sol se põe. A primeira estrofe diz: Qual cisne branco que em noite de lua, vai deslizando num lago azul; o meu navio também flutua; nos verdes mares de norte a sul. Acredita-se que o termo cisne branco seja inspirado no navio-escola Benjamin Constant.
Clach na Sula, explica o casal Yuri e Vera Sanada, significa menina dos olhos em gaélico - língua dos celtas, povo germânico que habitava a Grã-Bretanha.
Para finalizar, tente entender o significado de Vagalouca, confundido no início da regata com vaca louca. E tem a ver, pois o nome foi dado (e tem sua inspiração) na época em que a doença da vaca louca assustava os consumidores de carne da Europa. Mas o significado real é onda louca, pois vaga é sinônimo de onda - e também é um termo naútico.
Quanto à regata, os primeiros barcos, como o Viva, já estão chegando a Salvador. Mas como o Cisne Branco está muito atrás, fica impossível fazer contato com rádio - hoje à noite, estava a 470 milhas (870 quilômetros) da capital baiana.


