Noite de aflição
Hoje à noite, tem seleção. Prepare-se, amigo, pra mais uma noite de aflição. Ou os nossos jogadores deixam de lado a auto-suficiência ou tomam outra sova. Não que a seleção argentina seja um desses colossos invejáveis do futebol. Não é, e nesse ponto concordo com Alfredo Di Stéfano: a equipe de Bielsa tem suas imperfeições, mas compensa os defeitos defensivos e ofensivos esbanjando espírito de luta que é, a meu ver, um dos mais enervantes pecados da Seleção Brasileira.
Ninguém espera a equipe brasileira organizada, coletivamente. Pelo que leio, entram novos jogadores, nenhum deles excepcional. Alguns jogam o feijão-com-arroz sem sal dos que saem. Por exemplo: sai Flávio Conceição e entra Émerson e daí? A meia-cancha ficará mais vibrante, sem dúvida. Mas nada além. Jogo de cintura, improvisação, raciocínio rápido virtudes do craque , pode esquecer, amigo leitor. Em matéria de talento, os volantes brasileiros chegam a ser tediosos, tecnicamente, com exceção de Vampeta, que tem bom manejo mas abusa do prazer de conduzir a bola.
Uma observação sobre a preferência de Luxemburgo por quem está jogando na Europa: parece que jogar na Europa é atestado de excelência técnica. Quem é do ramo não aceita a teoria de que, se alguém joga na Europa, então é craque. Todo mundo está cansado de saber que, por trás dessas transferências milionárias, o que corre mesmo é muito dinheiro. Ganham os empresários, ganham os fantasmas de cá e de lá, ganha o jogador (pelo menos, os 15 por cento do valor da transação). Só não ganha a Receita Federal, escandalosamente bigodeada pelos clubes. Portanto, não há de ser pelo valor da transação que se avalia o talento de um jogador.
Como ninguém tem dúvida de que, no momento, a seleção argentina está jogando melhor que a brasileira, o jeito é a equipe ouvir o conselho de Pelé e do campeão Branco. Ambos têm dito que é hora de ensopar a camisa de brio e vergonha. Que seja, pois, a vitória do coração, o triunfo do suor, que tem cheiro de coragem.
Uma tarde triunfal
Domingo passado, participei de um debate sobre o futebol brasileiro. Foi no estúdio esportivo da Rádio Globo, Rio. O mediador Elso Venâncio me deu o privilégio de trocar idéias sobre o passado, o presente e o futuro da seleção, ao lado de notáveis como Didi, Gerson, Zagallo, Luis Mendes, o ex-jogador Branco, o lateral Athirson, Chiquinho da Mangueira, hoje, Chiquinho do Maracanã, e João Máximo.
Um consenso da mesa-redonda: Wanderley Luxemburgo está pagando pelo pecado de não delegar um dedo de poder a ninguém. Tem um corte concentrador que está afetando sensivelmente a sua imagem, com reflexos danosos à reputação da seleção nacional.
Foram três horas de análises, evocações, nostalgias, críticas de saudáveis intenções ao trabalho de Wanderley Luxemburgo.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O basquete masculino brasileiro entrou em eclipse: a equipe adulta não terá vez nas Olimpíadas. Agora mesmo, a seleção sub-21 passou em brancas nuvens pela Copa América, em Ribeirão Preto. Menos mal que o feminino, tudo faz crer, chegará a Sydney com a corda toda.
- Por falar em basquete, um leitor me manda um correio eletrônico com uma áspera interpelação: Por que o senhor menciona tanto a Paula, em sua coluna? É obsessão? É amor? Não, amigo, é pura gratidão pelo que Paula nos deu, de felicidade, com o seu basquete monumental.
- Aliás, devo te agradecer, não pela tua pergunta de maus bofes, mas porque me deste a chance de enobrecer a coluna, falando mais uma vez de Paula.
- A Inglaterra está chorando a fortuna que jogou fora com a sua candidatura a anfitriã do Mundial de 2006, que ficou com a Alemanha. A brincadeira inglesa custou, em propaganda, relações públicas, viagens pelo mundo, a bagatela de 15 milhões de dólares. E a CBF, quanto terá custado o furo nágua da candidatura brasileira?
- A corrida por talentos do futebol pirou por completo: dezenas de empresários estão cortejando os pais de um garoto uruguaio que moram num vilarejo a 500 quilômetros de Montevidéu. O guri já marcou 290 gols nos campeonatos infanto-juvenis de seu país. Tem um metro e 39 de altura, pesa 37 quilinhos e acaba de completar 12 anos de idade. É de assustar.
- Com amável dedicatória, o professor Jorge Olímpio Bento me manda seu livro Desporto e Humanismo. O autor é docente da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade do Porto, em Portugal. A edição brasileira é da Universidade do Estado Rio de Janeiro.
- Mais uma do fanfarrão Caixa Dágua: em plena negociação da CBF com o Gama, o moço andou falando asneiras, como taxar o Gama de timeco de subúrbio. O professor Caixa Dágua é mesmo das arábias.
- O Flamengo fica com Denílson, o Vasco da Gama, com Edílson. Empataram? Se Denílson tiver sensibilidade pra entender a alma rubro-negra, certamente será o grande ídolo que estava faltando à paixão do Flamengo. É exatamente o que deve acontecer com Edílson, no Vasco.
- Positivamente, a televisão é o instrumento que mais aguça o narcisismo do ser humano. No futebol, então, é de constranger. O cara faz um gol, sai correndo pelo campo e sai abraçando os reservas, à beira do campo. Solidariedade? Não, exibicionismo. Manipulação do veículo. A celebração de gol pelos técnicos, também, é postiça. Antes da tevê, o treinador ficava no banco, quietinho, quietinho.





