Fernando Tupan - De Curitiba
Claudio Osti - De Londrina
A criança é tão feia que ninguém quer ser o pai.
Ouvidos ontem pela Folha, dirigentes dos principais clubes que participaram do arbitral de terça-feira à noite negaram ter sido eles os autores da fórmula de disputa do Campeonato Paranaense de 2000.
O regulamento do torneio é um acinte ao torcedor. Reunidos terça-feira na sede da Federação Paranaense (FPF), em Curitiba, representantes dos clubes decidiram elaborar um campeonato, entre as 12 equipes da Primeira Divisão, com uma primeira fase em turno e returno. Oito se classificam para a segunda fase – um ‘mata-mata’ igual ao que estão disputando, atualmente, os finalistas da Série A do Campeonato Brasileiro.
Os cruzamentos, porém, é que são ‘inovadores’. Em vez do primeiro colocado enfrentar o oitavo, o segundo jogar com o sétimo e assim por diante, o Paranaense confrontará o primeiro com o segundo, o terceiro com o quarto, o quinto com o sexto e o sétimo com o oitavo colocado – um absurdo em termos de critérios técnicos, que deveriam nortear qualquer competição decente.
Os clubes do interior pretendem, com isso, garantir participação na decisão do campeonato, imaginando que o trio-de-ferro da capital (Coritiba, Atlético e Paraná) terminarão nos primeiros lugares e se eliminarão na segunda fase. A resposta dos três times da capital foi instantânea: já anunciaram que disputarão um torneio paralelo entre eles e representantes das regiões ‘mais representativas’ do Estado (Londrina, Maringá, Cascavel e Foz do Iguaçu) com apoio financeiro da TV e, no torneio oficial, mandarão a campo equipes formadas basicamente por juniores, deixando a escalação principal para a fase decisiva.
A tendência é clara: jogos sem nenhum interesse e, ainda, com enorme possibilidade de resultados arranjados, para que um clube ‘fuja’ de um confronto mais perigoso no mata-mata.
E as declarações sobre a responsabilidade pela idéia são feitas em tom de acusação. ‘‘O Clube dos 9 (entidade que congrega equipes do interior) desejava turno e returno, e conseguiu’’, diz o presidente do Coritiba, Jacob Mehl. ‘‘Isso é que os times do interior queriam. Eles não estão preocupados com calendário, eles pediram muitos jogos’’, disparou o presidente do Atlético, Nelson Fanaya. ‘‘Na verdade foi o melhor que conseguimos fazer depois de 10 horas de conversa’’, argumentou o presidente da FPF, Onaireves Rolim de Moura.
Os dirigentes do interior também tiraram o corpo fora. O presidente do Operário e do Clube dos 9, Antônio Mikulis, aponta Mehl, do Coxa, como o mentor da competição. O diretor jurídico desta entidade e da Portuguesa Londrinense, Hélio Camargo, vai além: Mehl e Fanaya, do Atlético, teriam elaborado a proposta. Os dois dirigentes atribuem a idéia ao Clube dos 9.
Sem pai nem mãe, o Paranaense tem pelo menos data para o início do fiasco: 5 de fevereiro. Prevendo jogos sem atração alguma para o torcedor, o Atlético já planeja mandar algumas partidas no CT do Umbará, que tem um estádio com capacidade para três mil torcedores. ‘‘Quem irá assistir Atlético x Portuguesa na Baixada?’’, pergunta Fanaya.
Mikulis ameaça fazer do próximo ano um festival de ações judiciais: ‘‘Se eles esculhambarem o Paranaense, vamos entrar com uma liminar na Justiça. Vamos procurar os direitos dos clubes. Se a FPF apoiá-los, entra na dança também’’. Já o presidente da Federação prometeu dar apoio para os clubes organizarem uma competição paralela. ‘‘A FPF apóia as iniciativas de seus associados, desde que não atrapalhem as competições organizadas por ela’’, justifica Moura.
O diretor jurídico da Portuguesa Londrinense, Hélio Camargo, diz que, se a fórmula não é ideal, pelo menos vai beneficiar os times do interior, que, segundo ele, terão mais chances de chegar ao quadrangular final do campeonato. ‘‘A fórmula do playoff foi proposta pelo Jacob Mehl para resolver o impasse que havia se formado. Nós tínhamos apresentado o regulamento com o quadrangular formado por dois clubes da capital e dois do interior’’, diz ele.
Camargo acredita que este é o melhor caminho para fortalecer as equipes do interior. ‘‘Ninguém vai querer fazer conluio para ficar nas últimas posições. Você acha que a torcida do Atlético, do Coritiba ou do Paraná vai permitir que sua equipe perca e fique atrás na tabela?’’, ele acredita. ‘‘Além disso, a pontuação também é importante para garantir o mando de campo nas fases seguintes. Antes os clubes de Curitiba sempre tinham a vantagem de jogar duas partidas em casa e, assim, eram beneficiados. Se não fizerem pontos suficientes, isso não vai ocorrer.’’
Sobre o torneio paralelo, Camargo diz não acreditar que vá acontecer. Segundo ele, os clubes de Curitiba teriam que ter um elenco excessivamente grande para disputar todas as competições do primeiro semestre de 2000, como a Copa Sul-Minas, Paranaense e a Copa do Brasil. ‘‘Os clubes estão em dificuldade. Tem alguns que estão com os salários atrasados e eu duvido que eles teriam, mesmo usando juniores, condições de participar de tantas competições ao mesmo tempo.’’
Sobre o esvaziamento dos estádios, Camargo diz que é uma ‘faca de dois gumes’, já que as fórmulas usadas até agora foram todas comandadas pela Federação e pelos clubes de Curitiba e não ajudaram em nada para atrair a torcida.
O Londrina, que não se deu ao trabalho de mandar representante para o arbitral, não ficou satisfeito com o resultado da reunião. O coordenador-geral do LEC, Célio Guergoletto, disse que talvez a fórmula aprovada tenha sido para agradar o Clube dos 9, mas não premia os melhores da competição. ‘‘O feitiço pode virar contra o feiticeiro, e os clubes correm risco de ter sério prejuízo financeiro’’, ele afirma. Guergoletto acredita que a fórmula também não é atrativa para a torcida.

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