Nilton Santos se mostra um craque na arte de viver
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quinta-feira, 19 de março de 2009
Sílvio Barsetti<br> Agência Estado 
Rio - Desde 2007, um adversário implacável tenta, e não consegue, driblar Nilton Santos. Vítima do Mal de Alzheimer, o bicampeão mundial, de 83 anos, superou nos últimos meses uma dengue hemorrágica e uma pneumonia. Ele vive numa clínica da zona sul do Rio há dois anos e exerce marcação cerrada sobre as doenças que querem deixá-lo definitivamente fora do futebol.
Também enfrenta problema de insuficiência cardíaca e precisa de acompanhamento em tempo integral. Apesar do desgaste, das doses intermináveis de remédios e da perda progressiva de memória, Nilton Santos não entrega os pontos nem perde o bom humor. ''Se eu fosse jogar hoje, não serviria nem para ficar na barreira''.
A voz sai arranhada, quase inaudível. Mas um leve sorriso vale como um bálsamo para quem está ao lado. Interagir com o maior lateral-esquerdo de todos os tempos é sempre motivo de alegria. Maria Célia, sua inseparável companheira, alerta que muitas perguntas podem cansá-lo. Então, a rápida entrevista se transforma numa visita e as poucas palavras de Nilton Santos preenchem com leveza a suíte repleta de lembranças do Botafogo, o único clube em que atuou (de 1948 a 1964).
São quadros, relógios, caneca, copo, chinelo, almofadas, tudo com o escudo do clube alvinegro. Logo na entrada, um aviso em madeira talhada dá o tom de como qualquer intruso deve se comportar. ''Seja bem-vindo. Não fale mal do Botafogo''.
Os quatro médicos de Nilton Santos e a enfermeira Marly dos Santos são botafoguenses. Tudo na vida dele gira em torno do clube. Ao ser informado da presença de uma equipe de reportagem no quarto, pergunta para o primeiro com quem se depara. ''Qual o seu time?'' A resposta parece desapontá-lo, embora ele reaja de modo simpático e acolhedor. ''O América é o segundo de todo carioca''.
Nilton Santos é a figura mais querida da casa. Todas as manhãs, ele caminha por uma trilha sinuosa, entre eucaliptos e outras árvores centenárias, até o Café da clínica. Naquele pequeno e aconchegante espaço rústico, outros pacientes se encontram diariamente para falar de amenidades e, muitas vezes, de Nilton Santos.
Uma bandeirinha do Botafogo, colocada em cima da geladeira, sugere que o mais famoso frequentador do Café tem lugar cativo ali. E ele tem mesmo: a mesinha ao lado do piano, sempre ocupada com um laptop aberto para que ninguém se atreva a tomar o lugar. ''Se ele chega e vê alguém sentado na sua cadeirinha, faz uma cara feia e cobra da gente. Por isso, resolvi deixar o computador na mesa'', contou Márcio Baraúna, que explora o espaço.


