Tacna, Peru - A cada gol, a cada drible, Neymar instiga as pessoas a decifrá-lo. Seria a genialidade com a bola nos pés um fenômeno genético, um dom ou algo que com muito treino a maioria de nós conseguiria fazer? Quem ele lembra: Robinho, Pelé, Maradona ou Messi? Conseguiria brilhar também no futebol europeu? Enfim, todas as perguntas que os brasileiros já se fazem há pelo menos um ano o mundo do futebol começa a repetir. Mas parece que a resposta não é tão complexa quanto parece. Pelo menos não na teoria. Neymar é um indivíduo com responsabilidades e rendimentos de gente grande e hábitos de adolescente. Ele só tem 18 anos. Vai completar 19 no próximo dia 5.
Os tais hábitos têm ficado claros no dia a dia. Como todo jovem que se aproxima da fase adulta, o atacante do Santos e da seleção brasileira se diverte ao conviver com os amigos, que na maior parte do tempo são os próprios companheiros de equipe, e ao ficar horas por dia em frente ao computador ou ao videogame.
É assim na concentração da seleção sub-20 que está em Tacna, no Peru, para a disputa do Campeonato Sul-Americano, classificatório para os Jogos Olímpicos de 2012. Como os quartos, cada um deles com dois atletas, estão no mesmo andar, as portas ficam abertas e o trânsito é livre. É um vaivém intenso. De um lado há o pessoal do pagode, do outro o do funk, ali na frente estão jogando videogame e, em um pequeno lobby, onde o sinal de internet é mais forte, reúnem-se todos eles, cada um com seu computador portátil. Neymar transita com desenvoltura em todos esses ambientes.
E é no bate-papo com os amigos que a sensação do futebol brasileiro e artilheiro da competição sul-americana mostra do que gosta na vida, além, é claro, de estufar as redes e provocar pesadelos nos adversários. ''Eu curto carros, gosto de roupas, de me vestir bem e de alguns enfeites, como brincos e anéis'', disse o craque. ''Mas existe uma coisa de que gosto bastante e que ainda não comprei, mas espero comprar logo, que é um jet ski''.
Craque que é craque, artilheiro que é artilheiro não fica longe da bola nem mesmo quando está de folga. Neymar segue à risca essa linha de raciocínio. A diferença é que ele costuma trocar a bola real pela virtual. Neymar é o que se chama de viciado em videogame. E o jogo de que ele mais gosta? ''Futebol, é claro!''
Quem acha que é exagero deveria ter presenciado a cena que ocorreu na concentração brasileira em Tacna. O hotel escolhido para receber a delegação é ''honesto'', mas está longe de oferecer sofisticação. Ar-condicionado, por exemplo, nem pensar. Se sentir calor, basta ligar o ventilador que já está à disposição em cada um dos apartamentos.
Mas o que mais incomodou Neymar não foi a impossibilidade de se refrescar durante as tardes áridas do sul peruano. ''Essa tevê de tubo não dá. A imagem do videogame não fica legal'', lamentou. O sorriso voltou rapidamente quando ele descobriu que um dos quartos tinha um aparelho de LCD. A estrela da competição foi até o hóspede, um jornalista brasileiro, e perguntou se poderia trocar com ele. Diante da resposta positiva, não teve dúvida: desceu o andar e providenciou a troca, para felicidade geral dele e dos companheiros, que não deixam de jogar futebol nem mesmo quando estão descansando. (com Anelso Paixão, de São Paulo)

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