Neuciane, atleta e vendedora
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2005
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Do que seriam as festas de final de ano sem as tradicionais histórias de fé e esperança que fazem parte do Natal? O esporte também tem das suas e um dos exemplos pode ser encontrado em uma empresa de produtos de beleza de um grande shopping center da Capital. Pelo segundo ano consecutivo, a gerente da loja dá o exemplo e emprega temporariamente uma atleta carente de recursos para treinar.
Neuciane Azevedo, de 28 anos, pratica já há 15 anos lançamento de dardo, disco e peso no atletismo. Em 92 e 93, conquistou o bicampeonato da categoria menores. Em 95, como juvenil, foi vice-campeã brasileira e disputou o Pan-Americano e o Sul-Americano da modalidade.
A atleta, natural de Goioerê (centro-oeste do Paraná), compete por Londrina nos Jogos Abertos do Paraná (Jap's) desde 96. Nesse período, chegou a desistir de competir. ''Fiquei desanimada porque na época, em 95, não consegui o índice para o Pan-Americano (de Winnipeg, no Canadá, em 99). O que me deu o 'sprint' para voltar foi o bom desempenho de alguns atletas que eram amigos meus, como a Maureen Maggi (ouro no salto à distância no Pan de Winnipeg). Pensei que poderia estar ali'', disse a lançadora e vendedora de cosméticos.
''Eu fiquei dois anos (98 e 99) em São Paulo sem fazer nada, só trabalhando. Daí vim para Curitiba, onde meus pais moram, e comecei tudo de novo. Meu corpo mudou e preciso estar em forma. Treino no Centro Politécnico porque não posso pagar uma academia e o trabalho temporário me ajuda com a renda extra'', explicou Neuciane.
Além dos salários dos ''bicos'', a atleta também recebe uma ajuda de custo da Prefeitura de Londrina, no valor de R$ 400 mensais, por fazer parte da equipe de atletismo e disputar os Jap's. Mas como ajuda em casa e também gasta para treinar pela manhã, trabalhar à tarde e fazer faculdade de Educação Física à noite, a verba acaba sendo insuficiente no final do mês. ''Quando tenho lesões tenho que pagar os médicos do meu bolso mas não tenho dinheiro nem para pagar a academia'', desabafou.
Neuciane precisaria pelo menos de R$ 1,5 mil por mês para custear somente sua preparação para as provas, sem contar os gastos com viagens para disputar competições. Mesmo sem patrocínio, não desiste do sonho. ''Tenho o pé no chão. Deveria estar treinando mas estou trabalhando. Mas sei que posso conseguir índice para o Pan-Americano no Brasil (Rio de Janeiro, em 2007)'', comentou. Ela deve intensificar os treinos em janeiro, quando deixa seu emprego temporário.
A gerente Dalva Carlos Barbosa, que administra a loja em que Neuciane trabalha, faz questão de elogiar o trabalho da atleta e também incentiva outros comerciantes a fazerem o mesmo. ''Ela é excelente, muito boa, senão por que iríamos chamá-la de novo? O problema é que a gente tem que ter paciência para esperar porque os atletas têm os calendários deles. Mas a gente sabe que nossos atletas passam muitas dificuldades e se cada loja do shopping contratasse pelo menos um atleta, já ajudaria'', sugeriu.


