Paulo Briguet
Enviado da Folha
Ronaldo de Assis Moreira tem 19 anos e treina no Estádio do ABC, com a Seleção Brasileira.
Alcebíades Miranda tem 10 anos e joga no campinho do Jardim Primavera, com a molecada do bairro.
Cerca de 200 metros separam o estádio do campinho em Foz do Iguaçu. Para Alcebíades conferir Ronaldinho treinando, teria que pagar no mínimo R$ 5,00. Para Ronaldinho conferir Alcebíades jogando, teria que dar um pulo nas redondezas do ABC. Lá, o futebol é de graça.
Na estréia do Brasil na Copa América, o Ronaldinho gaúcho fez um gol histórico no jogo contra a Venezuela, com direito a chapéu no adversário. Alcebíades não viu o gol nem o jogo, não por falta de vontade, mas por necessidade.
- Meu pai teve que vender a televisão lá de casa - conta o garoto. Ele pretende ver as outras partidas do Brasil na casa de amigos.
Ao explicar as origens de seu futebol-moleque, Ronaldinho diz que aprendeu muito na várzea e nos campinhos da Vila Nova, em Porto Alegre. O artilheiro gaúcho frequentou as peladas de rua desde um tempo que a memória não alcança. A primeira escola de Ronaldinho foi o futebol de pé no chão - igualzinho ao jogo de Alcebíades e seus amigos que a Folha acompanhou na última sexta-feira.
Ronaldinho diz que assiste a peladas até hoje:
- Sempre adorei ver aqueles jogos sem compromisso, sem esquema tático. Eu me divirto e aprendo.
Um dos primeiros ídolos do jogador foi o tio Miquimba, craque da várzea portoalegrense.
- Na minha família todo mundo sempre gostou de jogar bola.
O sobrinho conta que seu Miquimba conhece muito bem os segredos da pelota. Um saber que a idade não apaga: o tio ainda brilha em rachas de veteranos, lá na Vila Nova.
Antes de jogar no Grêmio e na Seleção, Ronaldinho vestiu outra camisa: a do time do Simão.
- Ele era o dono da bola - explica o atacante.
A velha bola no campinho do Jardim Primavera tem um símbolo apagado do São Paulo Futebol Clube. Alcebíades torce para o tricolor paulista, mas só é o dono da bola dentro do gramado. Lateral-esquerdo, ele quer um dia fazer os mesmos avanços ofensivos de Roberto Carlos. Para mostrar que tem chances, acerta um petardo no travessão do goleiro Claudir Teixeira, 14 anos. Alcebíades comenta:
- Eu treinava no Flamengo aqui de Foz. Mas tinha que ir a pé todo dia pro treino, e ficou difícil, sabe como é...
Ronaldinho sabe que o caminho para ser craque é de pedras e barro. Ele mesmo já viu muito garoto bom de bola que não chegou ao futebol profissional - antes por falta de recursos e disciplina do que de talento e garra. Com apenas 19 anos, o atacante da Seleção ensina:
- Pra passar da várzea para um grande clube, é preciso abdicar de muita coisa, perder a diversão durante a juventude. Eu me disciplinei e consegui. Muito jogador bom preferiu não abdicar de algumas coisas, e não teve chance de subir.
Há apenas vestígios de grama no campinho do bairro em Foz do Iguaçu. A rede está toda furada e suja, mas a molecada se anima com a partida. Moradores se aproximam da beira do campo e acompanham o jogo dos meninos. Alcebíades brilha, passa, domina, dribla, só não faz o gol.
Os meninos do Jardim Primavera, como em qualquer bairro do Brasil, mostram lampejos da arte do futebol. Renato André Lopes, gremista de 9 anos, parece um Paulo Nunes em miniatura: loiro, arisco, oportunista e cheio de raça. Portanto, o atacante do Palmeiras é seu ídolo. Cléberson de Lima, 12 anos, atacante e torcedor do Corinthians, foi o homem-gol na tarde do Jardim Primavera, com um chute de fora da área. Os garotos menores - com idades entre 3 e 5 anos - observam a partida com muita atenção, sentados onde seria a linha lateral do campo. Dentro das quatro linhas imaginárias, um jogador veste uma camisa de pijama e tem um crucifixo preto pendurado no pescoço.
O palmeirense Marcelo Gonçalves de Lima, de 12 anos, é habilidoso e aplicado na ponta-direita. Joga com uma puída camisa 10 do Brasil. Na atual Seleção - que treina ali ao lado -, Marcelo gostaria de ver outro adepto do futebol-moleque: Denílson. Já que o ídolo não veio, suas preferências se voltam para o Ronaldinho mais novo. No intervalo da partida, manda um recado para o goleador:
- Ajuda o nosso time! Marca muitos gols! Quando entrar em campo, não deixa o Brasil perder!
O futebol do Jardim Primavera sobrevive na base da molecagem e da vontade. Até pouco tempo atrás, a criançada tinha técnico - um morador conhecido por Dilão - mas a falta de apoio o afastou do cargo. Nesse ritmo, sem esquema tático ou orientação, a partida só termina lá pelas seis da tarde, quando começa a ficar escuro e é hora de menino ir pra casa.
Ronaldinho já viveu algo parecido em Porto Alegre. Daqui a alguns anos, onde estarão Alcebíades, Marcelo, Cléberson, Renato, o garoto do pijama, os pequenos que ainda irão entrar em campo no Jardim Primavera?

Nome: Alcebíades Miranda
Idade: 10 anos
Local de nascimento: Foz do Iguaçu
Onde joga: campinho do Jardim Primavera
Sonho: ser jogador profissional

Nome: Ronaldo de Assis Moreira
Idade: 19 anos
Local de nascimento: Porto Alegre
Onde treina: Estádio do ABC
Sonho: ser campeão da Copa América pela Seleção BrasileiraBairro de Foz do Iguaçu abriga o talento de Ronaldinho e os sonhos de Alcebíades
Ney de SouzaAlcebíades Miranda, 10 anos de idade, bate bola no campinho do Jardim Primavera, em Foz do Iguaçu: craque do bairro, garoto só poderá assistir aos jogos da Seleção Brasileira na vizinha Ciudad del Este na casa de amigos, porque o pai foi obrigado a vender a televisão da famíliaAlbari RosaRonaldo de Assis Moreira, atacante do Grêmio e da Seleção que disputa a Copa América no Paraguai: novo ídolo nacional teve o tio como exemplo e diz que até hoje curte ver uma pelada em Porto Alegre. ‘Adoro ver aqueles jogos sem compromisso; eu me divirto e aprendo’

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