São 54 anos de carreira, 37 deles vividos na Europa, várias Olimpíadas (a primeira em 1956, como atleta, e a última em 1996, como técnico) e mais de 120 vitórias em provas importantes do hipismo nacional e internacional. Toda a experiência não foi suficiente para que Nelson Pessoa Filho, lenda viva do hipismo e cavaleiro respeitado em todo mundo, resistisse: ao ver o filho, Rodrigo, campeão mundial, chorou.
‘‘Fiquei muito emocionado’’, disse Nélson Pessoa, o Neco, sobre a vitória do filho, inédita para o Brasil. Para ele, que também disputou o Mundial, o resultado foi motivo de muito orgulho. ‘‘O desempenho de Rodrigo foi sensacional’’, disse o cavaleiro, que não tem o hábito de se empolgar. ‘‘Foi uma grande alegria e fiquei satisfeito de que tudo tenha terminado em happy end.’’
A história deste happy end começou em 1961, quando Nélson decidiu morar no exterior para poder participar das principais provas do hipismo europeu. Neco repetiu o que o pai, Nélson Pessoa, havia feito com ele quando garoto e ensinou tudo o que sabia para o filho. Hoje os dois competem juntos. Rodrigo dedicou o título ao pai, companheiro nas pistas desde que começou a montar, aos cinco anos. Foi uma vitória de gerações.
Para Nélson, o dia mais tenso foi o primeiro dos três de competição. ‘‘Era um percurso muito perigoso em que corremos riscos de queda, pois precisávamos usar de muita velocidade para completar a prova’’, conta.
‘‘Mas corremos riscos limitados e, no fim do dia, terminei em terceiro e Rodrigo em sexto, uma diferença de dois pontos do primeiro lugar.’’ No segundo dia, problemas. ‘‘Infelizmente, tivemos uma baixa quando o cavalo do Doda (Álvaro Affonso de Miranda Neto) sofreu um corte profundo em um salto de aquecimento momentos antes de entrar na pista para competir.’’
O problema, segundo ele, prejudicou toda a estratégia da equipe brasileira que lutava por um lugar no pódio na categoria por equipes, pois cavalo e cavaleiro estavam em ótima fase. ‘‘Mas ficamos em quinto, a um ponto da Suécia, medalha de bronze, um bom resultado.’’ Na disputa da semifinal, Nélson, que cometeu uma falta em cada um dos dois percursos, ficou fora da decisão. ‘‘Mas Rodrigo fez 0 e 4 (uma pista sem faltas e outra com um erro) e qualificou-se em primeiro lugar, o que lhe deu muita confiança para a final.’’
A decisão exige muita perícia do cavaleiro, que monta os cavalos dos outros três finalistas. Antes de fazer a prova, ele tem apenas dois minutos e dois saltos para testar o cavalo. ‘‘Conversamos um pouco sobre como conduzir cada cavalo e Rodrigo soube maravilhosamente como tocar a música.’’

mockup