Negros cobram maior espaço como treinadores no basquete dos EUA


MARCOS GUEDES
MARCOS GUEDES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lou Richie apareceu com cartazes para acompanhar partidas decisivas da Pac-12, uma das divisões do basquete universitário dos Estados Unidos, no mês passado. Impedido por seguranças de exibi-los por mais do que alguns segundos, ele foi ao hotel em que estava hospedado em Las Vegas, vestiu uma camiseta com mensagem semelhante e retornou ao ginásio.

Conhecido por sua dedicação no trabalho com garotos que sonham chegar à NBA, o treinador negro mostrava na roupa a frase "treinadores negros importam". É um recado que vem sendo bastante repetido em um esporte dominado por negros dentro das quatro linhas e dirigido por brancos fora delas.

O protesto de Richie apontava que nenhuma das equipes da Pac-12, grupo com 12 universidades da costa oeste norte-americana, tem um técnico preto. Mas a luta não é restrita àquela região ou ao mundo do basquete de base, que o ex-atleta conhece tão bem. Seu grito é repetido em outros níveis e ganha eco na própria NBA.

"Eu não estou dizendo que os treinadores brancos não sejam bons, que precisem ser demitidos ou não devam ser contratados. É preciso deixar isso claro. Só acho que o processo de contratação deva ser mais igualitário e transparente", explicou o militante, apontando a discrepância entre a proporção de atletas negros e a de técnicos negros.

De acordo com um estudo publicado pelo jornal Pittsburgh Post-Gazette, quase 80% dos atletas recrutados para as cinco principais conferências do basquete universitário dos Estados Unidos, chamadas de "Power Five", são negros. Nesse mesmo universo, os treinadores negros correspondem a cerca de 14%.

A disparidade não é muito diferente na NBA, onde a fração de jogadores negros também fica perto de 80%. Entre os 30 times da liga norte-americana de basquete, há hoje sete treinadores negros, o equivalente a 23%. Um deles, Nate McMillan, do Atlanta Hawks, ocupa o cargo de maneira interina.

O incômodo com essa realidade se tornou mais evidente a partir do emblemático assassinato de George Floyd, vítima no ano passado da sistemática brutalidade policial contra negros nos Estados Unidos. Os jogadores chegaram a paralisar a NBA pedindo atenção ao assunto e cobraram dos executivos da liga mais diversidade no comando das equipes.

Terminada a temporada 2019/20, porém, os negros Alvin Gentry e Nate McMillan foram demitidos do New Orleans Pelicans e do Indiana Pacers, respectivamente, tendo seus postos ocupados pelos brancos Stan Van Gundy e Nate Bjorkgren. No Brooklyn Nets, após ótimos resultados do chefe interino negro Jacque Vaughn, foi acionado o branco Steve Nash.

A sensibilidade com a questão atingiu outro patamar já durante o campeonato atual, quando o Minnesota Timberwolves decidiu mudar seu treinador. O negro David Vanterpool era um dos auxiliares da comissão técnica e visto na NBA como candidato para a vaga aberta, mas a direção do time nem chegou a entrevistá-lo e rapidamente acertou com o branco Chris Finch.

Jogadores como Damian Lillard e CJ McCollum, que trabalharam com Vanterpool no Portland Trail Blazers, manifestaram publicamente seu descontentamento. Jornalistas norte-americanos apontaram a repetição do padrão. E a própria associação dos treinadores da NBA, que tem dois brancos como presidente e vice-presidente, apresentou um posicionamento claro.

O texto assinado por Rick Carlisle, do Dallas Mavericks, e Frank Vogel, do Los Angeles Lakers, demonstrava "preocupação profunda e decepção com o processo de contratação do técnico do Minnesota". "É nossa responsabilidade apontar quando uma entidade não realiza uma busca minuciosa e transparente de candidatos com uma ampla gama de origens", diziam eles.

A direção da liga não está desatenta à questão. A NBA é até elogiada pelos diálogos que procura estabelecer com diferentes interlocutores e vista como bem mais progressista do que as outras grandes ligas esportivas dos Estados Unidos, a de futebol americano, a de beisebol e a de hóquei no gelo.

Existe em seus escritórios um comitê de igualdade, com práticas estabelecidas de diversidade em contratações. A NBA e sua versão feminina, a WNBA, receberam no mês passado a nota máxima, A+, no boletim anual apresentado pelo Instituto para a Diversidade e a Ética no Esporte (Tides, na sigla em inglês).

Uma das iniciativas recentes foi a criação de uma base de dados com perfis de 275 treinadores e auxiliares técnicos em atividade. Uma consulta ao sistema pode facilitar uma busca mais ampla, mas, como se viu na escolha do Minnesota Timberwolves, o dirigente acabou optando por um profissional de seu círculo próximo.

"Em alguns casos, existe uma rede de relações construída há alguns anos. Então, quem não faz parte dessas redes fica em clara desvantagem no processo. Uma das coisas que a liga pode fazer é buscar um processo que assegure a todos oportunidades iguais para entrar na, digamos assim, fraternidade", disse o principal dirigente da NBA, o comissário Adam Silver.

Para ele, um dos caminhos é a contratação de mais auxiliares técnicos negros. Uma vez dentro das comissões, quebrar a barreira e alcançar o posto de treinador principal se torna teoricamente menos complicado. Ele e a associação de treinadores, porém, não considera a implementação de uma política de cotas.

Não há soluções simples, observa o dirigente, que abraçou com entusiasmo o lema "vidas negras importam", pintado nas quadras e nos uniformes na conclusão da temporada 2019/20. Em 2021, porém, a frase "treinadores negros importam", reiterada por Lou Richie no basquete universitário e por muitos outros no nível profissional, parece novamente precisar de repetição constante.

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