Negócios ruins levam time à lona
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quinta-feira, 13 de agosto de 1998
Agência Estado 
Último colocado no Campeonato Brasileiro, o Grêmio está devendo mais do que pontos. Clube com tradição de boa administração, o tricolor do Sul contratou errado nos últimos dois anos, gastou muito e atrasou salários. Mas o vice-presidente de administração, Denis Abrahão, assegurou ontem que todos os problemas financeiros de curto prazo serão solucionados ainda no final deste mês ou, no máximo, em setembro. Vamos fechar uma operação financeira com a marca Grêmio no valor de R$ 4 milhões cash, adiantou, sem detalhar o negócio.
Abrahão garantiu que as dívidas totais do clube não ultrapassam R$ 9,6 milhões. Nossa situação nos permite dormir muito tranquilos, reiterou. O que nos preocupa - continuou - é a lei Pelé. Explicou que o clube possui 1.500 meninos nas suas escolinhas de futebol, de onde saem, em média, de três a quatro jogadores para sua equipe principal, um trabalho prejudicado, a seu ver, pela nova legislação. Não sei se vamos continuar investindo, comentou.
Desde o final do primeiro semestre de 97, quando conquistou a Copa do Brasil, o Grêmio vem acumulando equívocos. Desmanchou uma equipe vencedora, que arrebatou, em três anos, uma Taça Libertadores, uma Recopa Sul-Americana, duas Copas do Brasil e um Campeonato Brasileiro. Nenhum clube brasileiro chegou perto de tantas conquistas no período. Atraídos por bons contratos no exterior, saíram Paulo Nunes, Émerson e Carlos Miguel. Dono do seu passe, o zagueiro Adílson já havia partido no fim de 96. Um caminho que seria seguido por seu sucessor, Mauro Galvão, em 97.
Não há informação precisa sobre o que o Grêmio realmente ganhou com as negociações, já que parte do passe de alguns jogadores pertencia a empresários. O certo é que a direção foi às compras e comprou muito mal em 97. Trouxe o meia Beto, do Napoli, por cerca de R$ 4 milhões, a maior aquisição da história do futebol do Sul, que ocuparia a vaga de Émerson. Irreverente, Beto ganhou mais fama como promotor de festas do que pelo seu desempenho dentro de campo. Trouxe Sérgio Manoel, ex-companheiro de Beto no Botafogo, que também fracassou. Veio ainda o meia-atacante Robert, ex-Santos, que atuou somente na abertura do Brasileiro/97, contra o São Paulo (0 a 0) e machucou-se. Não voltou a disputar partidas oficiais desde então. A única investida gremista que deu algum resultado envolveu o centroavante Guilherme, ex-São Paulo e que estava no Rayo Vallecano, da Espanha. Calcula-se que o investimento total ronde ou até ultrapasse os R$ 10 milhões, quantia igual ou superior ao que o clube apurou com as vendas.
Em 98, mais tentativas frustradas. Arce foi para o Palmeiras e, no seu lugar, vieram o atacante Maurílio, o lateral Itaqui e o zagueiro Rodrigo, todos do Juventude. Nenhum deu certo. Quatro zagueiros - Jorginho, Ronaldo, Rodrigo e André Santos - foram buscados para a vaga de Galvão. Nenhum confirmou até agora. Para agravar o quadro, há os quatro técnicos contratados e dispensados após a saída do ídolo Luiz Felipe Scolari que continuariam recebendo seus salários, como estabeleceria a rescisão. O último deles foi Edinho, que disputou cinco partidas oficiais e não venceu nenhuma.
As dificuldades fizeram o clube negociar parte do passe do meia Paulo César Tinga, um dos jovens mais promissores do Olímpico. Abrahão admite a venda de 20% do passe. Os compradores seriam os jogadores Renato Portaluppi e Romário.
O advogado Sérgio Neves, de 59 anos, 25 deles dedicados ao direito esportivo, acha que a crise não só do Grêmio mas da maior parte dos grandes clubes do país começou quando o Flamengo trouxe Zico da Europa. Foi a primeira contratação deste tipo e, como Zico chegou ganhando cinco ou mais vezes o que recebiam as estrelas locais, houve reflexos nos salários, estimulados pelos padrões europeus, interpreta. Preparando-se para lançar o livro O Clube Empresa - Futebol & Marketing, ele profetiza que a inflação provocada pelo regresso dos exportados - Júnior, Bebeto, Romário entre outros - vai explodir o futebol brasileiro.


