No início de 2010, Natália Falavigna recebeu uma proposta para treinar no Time Rio, na capital fluminense, e decidiu deixar Londrina para aproveitar o que via como "uma oportunidade única". Depois de uma passagem também por São Paulo, após as Olimpíadas de Londres-2012, a taekwondista está de volta a sua cidade natal, onde tudo começou e onde pretende fazer tudo recomeçar em sua carreira, aos 29 anos.
Neste intervalo, a londrinense vivenciou de tudo no mundo do esporte e não se arrepende do caminho trilhado. O aprendizado, segundo ela própria, valeu a pena e a deixou mais experiente e segura para voltar ainda mais forte.
Na última sexta-feira, a primeira medalhista olímpica do taekwondo brasileiro recebeu a reportagem da FOLHA e falou sobre tudo: a volta a Londrina, a experiência adquirida nesses anos fora, polêmicas, metas para 2014, e, claro, Olimpíadas do Rio de Janeiro.

A volta
A decisão de voltar a Londrina foi tomada em outubro do ano passado, após a recuperação total da quinta cirurgia pelas quais passou nos últimos quatro anos. O planejamento é fortalecer sua estrutura e realizar toda a preparação visando a disputa de sua terceira Olimpíada, no Rio de Janeiro, daqui a dois anos.
"Estou de volta, buscando estrutura para permanecer aqui (em Londrina), é o momento que quero voltar, sempre lutei pelo Paraná, sempre defendi Londrina. Depois de passar um ciclo olímpico longe, senti que era hora de voltar às origens, estar mais perto de casa, de tudo aquilo que me construiu como atleta. Se tiver o mínimo de condição de treinar em Londrina, minha ideia é não sair daqui", disse a lutadora.

Experiências fora
Quando deixou a cidade, há quatro anos, Natália foi seduzida por um projeto da Prefeitura do Rio de Janeiro, o Time Rio, que uniu atletas de ponta de várias modalidades com foco na preparação para os Jogos Olímpicos de Londres-2012. Por lá, ela ficou três anos e treinou também no Fluminense. Depois, ainda ficou um ano em São Paulo. Aprendizado que será importante na nova etapa da carreira.
"Algumas coisas foram muito legais em termos de conhecimento, de infraestrutura, de apoio, tive vivências legais, o jeito que se enxerga esporte no Rio e em São Paulo, como faz o esporte virar negócio. O lado profissional. Além disso, pude viajar muito e tirar referências do que se faz no mundo todo. Então trouxe uma boa base do que penso em ter aqui em Londrina agora", contou.

Lesões
As lesões foram um tormento para Natália nos últimos anos. Desde 2010, ela passou por cinco cirurgias, duas para reconstituir os ligamentos do joelho direito e uma no esquerdo, esta última em 2013. Foram ainda mais duas nos tendões dos tornozelos. Por conta delas, a atleta perdeu competições importantes e por pouco não ficou de fora em Londres-2012. Mas, olhando o passado, ela enxerga tudo com naturalidade. "Michael Johnson teve 47 lesões ao longo da carreira. Se o atleta chega nesse nível, vai passar por esse processo. Isso é natural. O que é ruim no Brasil é que não se respeita essa volta, tem que se lutar antes do tempo", reclamou.

Desafios em 2014
Totalmente recuperada e confiante, Natália quer aproveitar o primeiro semestre para retomar o ritmo de lutas. "Quero ter um ano cheio, no qual possa lutar bastante, que é o que está faltando, esse ritmo de competição, porque treino é uma coisa, competir é outra", comentou ela, que terá cinco competições já na primeira metade do ano. O primeiro será o Sul-Americano, com a seleção, no final do mês. Depois ela luta mais três torneios fora para somar pontos no ranking internacional, visando vaga no Grand Prix, no final do ano, para o qual vão somente os 32 melhores do mundo em cada categoria.

Seletiva da seleção
Desnecessária. Foi essa a palavra usada pela lutadora para reclamar da polêmica criada após a final da seletiva para a seleção, há duas semanas, quando acertou um soco no rosto de Ana Carolina Souza e foi desclassificada. "Sou uma atleta que faço bastante ponto de soco e executei diversas vezes na competição. E na última luta, os árbitros não estavam dando os pontos. Aí resolvi subir um pouco mais o braço para que os árbitros conseguissem ver, e nesse momento ela encurtou, eu acabei pulando, acertei o colete e a mão subiu, resvalando no rosto dela. É passível de punição e o atleta pode usar a malandragem. E eu permiti isso. Mas foi um lance de luta, que acontece, foi um estardalhaço desnecessário", reclamou.

Rio 2016
O sonho de ir à terceira Olimpíada é o que move o dia a dia da medalhista de bronze em Pequim-2008, na categoria até 67 Kg. "Disso não tenho dúvidas. Voltando a lutar, tendo ritmo de luta, não tenho dúvidas do meu potencial. Sei que só depende de mim. Sempre tive capacidade de superação, de me reinventar e dessa vez não vai ser diferente", garantiu.

Fernando Madureira
A briga com o técnico da seleção brasileira, o também londrinense Fernando Madureira, depois de uma troca de farpas pela imprensa, em 2011, está superada, segundo ela. "A gente sentou, conversou. Na época fiz uma crítica pontual ao comando, em termos gerais, não só ao comando técnico. Acabei sendo mal interpretada por um repórter de Brasília, mas assumo o culpa pela crítica que fiz. Assumo naquele momento a infelicidade da minha declaração, mas eu falei, ele falou, e os dois buscando o melhor", revelou Natália.

O Futuro
Às vésperas de sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo, a atleta vê o país perdendo uma grande oportunidade de se firmar como potência esportiva. "O Brasil está perdendo um grande momento, que dificilmente vai recuperar, não desenvolvendo um modelo próprio de cultura esportiva. Não estamos revelando talentos, não estamos pensando em Jogos Olímpicos, está se pensando em 2016, e não no futuro, em 2024, 2028. Estão sendo feitas ações pontuais para uma determinada geração, que logo vai parar".

mockup