No último dia 4 de maio, o londrinense Diogo Yabe, 22 anos, fez o melhor tempo nos 200 metros medley no Troféu Brasil de Natação, no Rio de Janeiro, e colocou abaixo o recorde de Ricardo Prado, que já durava 20 anos. Mas Yabe não só quebrou um tabu: ele também colocou mais um esportista local no Mundial e nos Jogos Pan-Americanos e, especialmente, trouxe à tona um passado glorioso da natação em Londrina.
Uma geração inteira sequer sabe, mas Londrina viveu uma bela história na natação, fato que a memória esportiva mundial jamais esquecerá. Patrícia Silva, Ricardo Moita, Bianca Zanini, Dirce Sakai, Rogério Romero o único da trupe que ainda é lembrado , Fernando Magalhães, Arhur Imagawa, entre outros, são apenas alguns dos grandes heróis que fizeram do Paraná uma potência. Atletas que, nos anos 80, levaram e elevaram o Norte paranaense em diversas competições internacionais, principalmente nas Olimpíadas.
O treinador Waldemar Blota Silva, o Dema, que atua há 30 anos na natação local lembra bem essa época. Dema foi o coordenador de grupos vitoriosos no Londrina Country Club, na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) e no Grêmio Literário e Recreativo Londrinense. ''Tivemos uma evolução do esporte aqui no fim dos anos 70. Mas o auge da natação em Londrina foi de 80 a 85, com o ápice em 88, nas Olimpíadas de Seul'', diz. Durante esse período, o município tinha uma rivalidade muito forte entre os clubes, o que garantia um elevado nível de competição. ''A Acel (Associação Cultural e Esportiva de Londrina), o Country e o Grêmio tinham equipes muito fortes. Existia um clima de disputa que incentivava todo mundo.''
O nadador Rogério Romero, campeão nos Jogos Pan-Americanos de 91 e que garantiu índice para o Mundial e o os Jogos Pan-Americanos deste ano, faz questão de resgatar o esforço da comunidade para assegurar os treinos e a realização dos torneios. ''Os pais faziam bingos, rifas, promoviam almoços e sempre estavam presentes nas reuniões dos clubes. Havia uma participação familiar muito forte pois as mães não trabalhavam fora e compareciam aos campeonatos'', afirma. Porém, com o início dos anos 90 e a situação começou a mudar.
Crise
Não existe exatamente um único fator que levou a natação londrinense à decadência nos anos 90. Sem renda oriunda com a natação, o desinteresse de patrocinadores e da própria comunidade, a falta de estímulo do governo federal e até mesmo a queda do número de associados obrigaram os clubes a desmantelar as equipes de competição.
''A crise financeira atingiu os clubes, que começaram a reavaliar os gastos com a natação profissional. É caro pagar médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e ainda dar ajuda de custo para os atletas. Além disso, a receita diminuiu porque os próprios associados deixaram de usar o clube como lazer, já que começaram a surgir condomínios fechados, chácaras e outras formas de entretenimento'', explica Ariobaldo Frisselli, atual diretor-técnico da Fundação de Esportes, que na época coordenava o departamento de esportes do Iate Clube de Londrina.
Ricardo Moita, que fazia parte do grupo londrinense integrante da seleção brasileira na década de 80, afirma que parou de nadar justamente quando os clubes pararam de manter as equipes de competição. Hoje ele é formado em bioquímica e administra um laboratório. ''Nadei de 81 até 95. A situação era muito boa até 92, mas a partir daí a política dos clubes começou a mudar porque um time gera custos muito grandes com viagens e pagamentos para federação. E com isso, a situação foi ficando cada vez pior e todas as equipes de competição da cidade acabaram se desfazendo'', relata.
Panorama
Atualmente, a Adenlon Associação para Desenvolvimento da Natação Londrinense gerencia os R$ 55 mil ao ano destinado pela Fundação de Esportes para a fomentação do esporte no município. Através de um projeto municipal, a diretoria, que trabalha com um trabalho voluntário entre técnicos da cidade, distribui a verba de forma estratégica para manter um mínimo de suporte para a natação em Londrina.
''A gente gasta o dinheiro com eventos que possam incentivar a natação, pois nós, técnicos, também sabemos que sem as competições nosso trabalho está ameaçado. Mas a verba ainda é escassa e não dá para destinar dinheiro para montar estrutura, apenas gastamos com viagens de nossos atletas em competições'', explica Cristiane Amorim, que coordena a natação na Associação dos Funcionários Municipais de Londrina e preside a associação.
Atualmente, os clubes da cidade cedem a estrutura para os atletas treinarem, mas nenhum deles garante recursos para a montagem das equipes de competição. O coordenador de esportes do Londrina Country Club, Ciso Gonçalves, afirma que, assim como vem acontecendo desde o início dos anos 90, ainda não há retorno financeiro suficiente para que a situação mude. ''Aqui, por exemplo, só mantemos a escolinha. Ainda é muito oneroso manter uma equipe de competição e não dá para manter um grupo de alto nível sem um patrocínio forte'', justifica.
Como alternativa, por exemplo, a Acel acabou terceirizando o setor de natação para o Centro Aquático, coordenado por José Renato Pereira dos Santos. O coordenador afirma que trabalha com um pequeno grupo de 14 atletas e todos fazem parte de uma equipe de competições. ''Mas isso só é possível porque temos recursos financeiros da prefeitura de Foz do Iguaçu. A Secretaria de Esportes de Foz já conhecia nosso trabalho e resolveu apoiar, o que acontece desde janeiro de 2002'', revela.
Segundo Santos, ainda assim os atletas acabam tirando dinheiro do bolso para pagar algumas despesas com viagens e federação. ''Não é a alternativa ideal, pois nossos nadadores gostariam de representar Londrina. Mas pelo menos assim conseguimos manter um grupo para disputar campeonatos'', complementa.
Karen Romero, irmã do consagrado nadador londrinense Rogério Romero, também acabou encontrando outro meio para continuar incentivando a natação na cidade. Ela tem uma escola de natação, com a parceria do Iate Clube. ''Tentamos fazer uma natação competitiva para tentar trazer de volta o espírito de disputa, rivalidade entre os clubes. Hoje não temos torneios na cidade e não há como crescer sem competir e por isso incentivamos a organização de eventos. Em três anos da escolinha já temos 150 alunos e esperamos aumentar para, através da quantidade, encontrarmos a qualidade. Quem sabe logo não teremos um outro Diogo Yabe?'', aposta.
São esses incentivos isolados que fazem de Londrina ainda um centro de referência na natação não como na ''época de ouro'' nos anos 80 mas todos os integrantes desses projetos são unânimes em um aspecto: é possível trabalhar com natação na cidade, que têm atletas de grande potencial, mas ainda é impossível garantir a permanência desses nadadores aqui. Prova disso é que Romero e Yabe atualmente treinam em Belo Horizonte e São José dos Campos (SP), respectivamente.
Perspectivas
A natação, como todas as modalidades esportivas consideradas amadoras, sempre vai esbarrar na maior dificuldade para conseguir crescer, não só em Londrina, como também em todas as regiões do País. Além do apoio, ainda que pequeno, dos governos estadual e municipal, as iniciativas isoladas têm feito a diferença mas, segundo Rogério Romero, isso tudo é insuficiente.
''Não adianta a mãe levar o filho para a escolinha pensando que ele vai ser campeão mundial. Em primeiro lugar é preciso pensar na natação como uma forma de vida saudável com todas as qualidades que um esporte pode proporcionar, como disciplina, aumento da autoconfiança, espírito de competição. Só aí que você vai escolher isso como meta para sua vida'', diz Romero.
''Dificuldades para competir todo mundo vai ter em qualquer lugar do mundo e em qualquer esporte. Não é só por causa da falta de incentivo que alguém tem que parar de nadar. É preciso ter, acima de tudo, muita força de vontade e saber que são necessários sacrifícios para obter resultados'', desabafa o londrinense de 31 anos, que batalha pela sua quinta participação em Olimpíadas.

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