A apenas 70 quilômetros de Curitiba, São Luiz do Purunã guarda um cenário deslumbrante, propício para atividades verticais: à beira do abismo, aprecia-se um profundo e denso colchão verde, mata fechada. O horizonte é irregular, cortado por inúmeras escarpas, resultantes do encontro do primeiro e segundo planaltos paranaenses. Ao fundo, isolado, um montinho de construções sugere a distância da civilização, o município de Campo Largo. Todo este visual é cercado por campos e mais campos a perder de vista...
Nesta época do ano, boa parte da manhã e da noite, são cobertas por neblina. É recomendável que as aventuras – cavalgadas, trekking, técnicas verticais, caving e mountain bike – praticadas na região sejam marcadas a partir das 10 horas. Chegamos às 10h30 e o vale ainda estava encoberto pelo branco nevoeiro... Um visual indescritível! Os penhascos, os quais tínhamos a intenção de rapelar, se perdiam nas nuvens: ‘‘O lugar é alucinante! Toda essa beleza só vai enriquecer o rapel de hoje...’’, confessava com ansiedade a experiente curitibana Irene Hladczuk, 26, que conta em seu curriculum aventuras em vários pontos do Brasil, Costa Rica e México.
Após uma pequena caminhada, resmungada por alguns estudantes de turismo que nos acompanhavam – acostumados à preguiça de suas aulas teóricas – os instrutores irmãos Gláucio e Alessandro Schwonka, da agência de aventura Terral Ecoturismo, preparavam a ancoragem do rapel: como as rochas são de arenito, não existem pontos de apoio, fortes árvores, nas proximidades dos penhascos. É necessário fazer dois pequenos furos, de 12 cm de profundidade, e colocar grampos especiais de compressão (se expandem a medida que são martelados nos buracos). Com a ajuda de fitas e mosquetões a corda é bem ancorada e jogada ao precipício, pronta para encarar qualquer peso pesado - até 1.500 Kg! É seguro.
A falta de confiança natural dos estreantes é compreensível. A estudante Aline Thais, 18, encontrava-se pensativa, sentada longe numa pedra... ‘‘Minha mão está suando... é muito alto!’’, referia-se apreensiva aos 25 metros de descida positiva do primeiro rapel do dia... Mas não decepcionou, deixou o ‘amarelo’ de lado e desceu numa boa: ‘‘Uma vez na parede não tem mais volta, o medo desaparece e você vive tudo com muita intensidade, a paisagem é maravilhosa!’’
A experiência foi tão boa que todos fizeram questão de repeti-la. Ao chegar à base, uma trilha subia para a esquerda e, a poucos metros, uma passagem num estreito corredor entre dois enormes rochedos temperou ainda mais a atividade. Um lugar úmido, iluminado pelo intenso verde refletido pelo limo que cobria as pedras. Cuidado para os escorregões e torções de pé.
Cinquenta metros entre negativas e saltos no vazio
Chegada a hora do segundo desafio: desta vez o paredão se estendia por mais de 50 metros. Frio na barriga contagiou grupo. Tínhamos outro buraco de uns 40 metros que deveríamos atravessar por uma tirolesa, cordas esticadas presas de um ponto a outro do poço, na qual os praticantes deslizavam através de roldanas, estilo Indiana Jones... Passada a brincadeira, alguns passos mais à frente demos de cara com o precipício. Sentamos e contemplamos a paisagem, enquanto Gláucio e Alessandro preparavam a ancoragem. Um misto de admiração e adrenalina envolveu, principalmente, os iniciantes, entre eles nosso fotógrafo, Leandro, que tinha a missão de pendurar-se na corda reserva e captar as melhores imagens da aventura.
Karina, 22, outra estudante, foi a primeira: ‘‘Tive medo, pensei que a minha mão cansaria de frear a corda, mas controlei bem e me amarrei na adrenalina!’’ O chamado anjo da guarda do rapel é o guia que acompanha a descida desde a base da parede, e é o principal responsável pela segurança, neste caso, papel de Alessandro. Com as mãos na corda e olhos atentos à pessoa que desce, estava pronto para esticá-la, quando necessário. Isto freia, na hora, o rapel e suaviza os possíveis impactos contra a parede que os mais atirados se expõem ao descer aos saltos no vazio.
Esse trecho foi bonito. Com a parede na sombra, o praticante parado no meio do trecho de negativa, sem contato com a rocha, apenas suspenso na corda, gira o corpo e se deslumbra com o visual do vale, privilégio dos rapeleiros. Nesse momento, a novata Aline esquece-se do medo e curte muito a experiência. Ildelgar Jensen, 22, admira-se: ‘‘Um lugar tão massa, tão perto de casa...’’ Jensen tem a experiência de um rapel de 120 metros nas costas.
A magia do dia despediu-se com um pôr de sol cheio de cores, hora em que um grupo de andorinhões voltam para casa, mergulhando no buraco da tirolesa...

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