NAS ENTRANHAS DA TERRA
A água corre e se infiltra. Vai seguindo dutos, encontrando caminhos, guiada pela lei da gravidade e obstáculos naturais. Entre estes, a rocha de calcário deixa-se esculpir. A água esculpe e desenha a terra... formando galerias e salões jamais tocados pela luz do sol, no subterrâneo da mata atlântica.
Ao todo são 417 cavidades catalogadas numa mesma região, num espaço necessariamente protegido e fiscalizado no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, PETAR, localizado em Iporanga, sul do estado de São Paulo, a apenas 190 Km de Curitiba..
A emoção da primeira caverna
Guiados por Gláucio Schwonka, proprietário da agência de aventura Terral Ecoturismo, nos dirigimos à Caverna do Tatu. Excelente escolha. Apesar de ser relativamente pequena, se comparada à vizinha Caverna do Santana, que conta com mais de 20 Km de travessia, essa é uma das mais ricas em tipos espeleotemas (formações próprias das cavernas); além de contar com uma radical entrada: um apertado rapel num buraco fundo e escuro no meio da mata!
Preparada a ancoragem (corda presa na pedra) começamos a descer por seis metros, com alguns contatos com a parede de pedra irregular. A luz das carbureteiras, capacete com uma chama acesa na testa, que substitui a lanterna, desvendava o ambiente mais sombrio que já conheci. Como fui o primeiro a descer, a apreensão era forte. A imaginação quando se entra num buraco desses flui livremente: rapelando entre as escuras pedras, pensa-se na possibilidade de um animal faminto, preso lá embaixo, que eventualmente caiu no poço já há alguns dias... Lembrei dos morcegos, do capitão caverna... Enquanto esperava os amigos a paranóia era prontamente combatida por investidas com a lanterna, disparando para todos lados. Afinal era a primeira vez num ambiente subterrâneo.
Com as botas na lama na maioria das cavernas a entrada fica barrenta pela terra e material orgânico que as chuvas trazem da floresta seguimos descendo caminhando por um estreito e escorregadio túnel. Chegando ao primeiro salão, a grande descoberta! Estalactites (formação mineral alongada que se forma nos tetos das cavernas ou subterrâneos) brancas e marrons gotejando no teto, estalagmites (formação mineral encontrado no solo de uma caverna ou subterrâneo, resultante de respingos caídos do teto) crescendo no chão, colunas (junção das duas anteriores) parecem que sustentam tudo, cortinas de pedra adornam outro canto da sala... Estamos em outro mundo! Como se não bastasse, em diversos pontos, pedras e paredes brilham intensamente, como se estivessem produzidas para um grande espetáculo. São pequeníssimos cristais que refletem as nossas luzes - fato raro em outras cavernas.
Gláucio nos acorda para outra atração quase exclusiva do Tatu: o Ninho de Pérolas. Pedras redondas e brancas no chão que se formaram a partir de fragmentos do solo que, após sofrerem a ação de gotejamento direto, rodam e crescem com o acúmulo de materiais trazidos pela água.
Todo esse processo dinâmico de formações das cavernas vem de longa data, milhões e milhões de anos. Um simples toque, um tropeço ou esbarrada, feitos numa fração de segundo, pode quebrar uma peça deste frágil e milenar ambiente. Todo cuidado é pouco! Ao visitar uma caverna não toque em nada. As mãos enlameadas podem manchar para sempre uma estalactite. Não leve nada de uma caverna, deixe-a como a encontrou. Outra norma: não leve as mãos ao rosto, fezes de morcegos em contato com as mucosas podem causar sérias infecções.
Encarando o lago subterrâneo
Aproveitamos o final de tarde para conhecer uma caverna pouco explorada pelo ecoturismo, por conta de sua radicalidade, a do Lago Suspenso. A aventura desta vez consistia num buraco, de entrada ainda mais estreita que a do Tatu, fácil de entalar, dois rapeis (8 e 12 metros) e dois grandes salões ocupados por água.
No primeiro rapel, entrando na caverna, o visual do imenso salão é impressionante! A luz da poderosa chama dos capacetes, mesmo a das lanternas, apenas iluminava as paredes mais próximas... O breu numa caverna é total. Num ensaio do fotógrafo apagamos todas as carbureteiras e ficamos submersos na escuridão, experimentando o real ambiente subterrâneo. A expectativa de que os olhos se acostumem e comecem a distinguir formas se prolonga e não acaba mais. O negro toma conta de todos. Subitamente Leandro, o fotógrafo, dispara um flash numa direção, seguido por outro, e outro... as imagens vão gravando-se no fotograma e em nossas memórias.
A poucos metros da entrada, subindo por algumas pedras, chegamos a um imenso travertino formação que molda um muro que, neste caso, formou uma bacia e acumulou água, criando uma enorme piscina. Com água nos joelhos, seguimos caminhando estupefatos com a beleza exótica do Lago Suspenso. Flagramos morcegos na tradicional posição, agarrados pelas patas nas pedras, de cabeça para baixo, e fomos surpreendidos por outros tantos que planavam, zunindo sobre nossas cabeças. Não há riscos, estes são vegetarianos...
Ao final do travertino, topamos com um precipício de 12 metros, os quais foram vencidos com outro rapel, só que desta vez com a base líquida de um lago gigante que se estende por um túnel em curva. Munidos com capacete e coletes salva-vidas não tivemos outra escolha que nadar e explorá-lo, com os sentidos à flor da pele. Gláucio nos conta que sua profundidade é desconhecida. Um fio de nylon amarrado a uma pedra encontra-se esticado no abismo submerso - sinal da ação de mergulhadores de cavernas, uma das práticas mais radicais do planeta, devido ao alto risco imposto. Vencido o primeiro grande medo dos primeiros minutos, o segredo é relaxar e não pensar muito... A musiquinha do filme tubarão vem à tona (tã, tã, tã...). Ignore!
A volta foi a parte mais difícil. Inexperientes em técnicas verticais, nos vimos com as cordas esticadas acima como a única saída disponível - Ah, se algum mal intencionado passasse na boca da caverna e puxasse as cordas... Com supremo esforço e muita vontade saímos, alentados por Gláucio. Nunca se meta a explorador sem o acompanhamento de um guia qualificado.
BOX: Serviço
Aventure-se, junte a sua turma e explore as cavernas do PETAR. Reservas e informações: Terral Turismo Aventura: [0xx41] 352-1219 ou www.terral.tur.br
Onde ficar: Os chalés da Pousada das Cavernas, com a belíssima vista para serra, são a melhor opção de hospedagem da região. Reservas: [0xx11] 5543-3082. Vale a visita ao site: www.pousadadascavernas.com.br





