Nacional: fome, derrotas e abandono
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quinta-feira, 11 de julho de 2002
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Em uma versão menos lúdica e mais dramática, o Norte do Paraná tem seu candidato a Íbis, o time pernambucano que contraria os pragmáticos e transforma derrota em diversão.
É o Nacional Atlético Clube, de Rolândia (25 km a oeste de Londrina), lanterna da Série A-1 do Campeonato Paranaense (equivalente à segunda divisão) com apenas seis pontos em 54 possíveis.
O time acumula oito derrotas consecutivas e 16 partidas sem vencer. São 131 dias sem vitória. No campeonato, são 50 gols sofridos e apenas 10 marcados. Um inacreditável saldo negativo de 40 gols.
''É um verdadeiro caos. Não dá nem para acreditar'', lembra Silvano Celso Rodrigues, autônomo de 53 anos que desde a infância acompanha os jogos do NAC, um clube que orgulhou os rolandenses nas décadas de 50 e 60, quando era um esquadrão temido em seus domínios até mesmo pelos clubes de ponta do futebol nacional. Entre outros legados, revelou Gauchinho, o maior artilheiro e o principal jogador da história do Londrina.
Na semana passada, depois da derrota de 3 a 0 em casa para o Cianorte, o mundo do Nacional caiu, expondo um drama além da esfera esportiva. ''Os jogadores não receberam salários ainda este ano. Já passaram muita fome. Sempre faltava comida no alojamento. Foi uma tristeza. Saco vazio não pára em pé e é lógico que não vai ganhar de ninguém'', releva Sérgio Amílcar Pereira, o Soco, secretário municipal de Esportes que praticamente assumiu o comando do clube depois que o arrendatário Osias de Matos foi ''expulso'' da cidade.
O NAC é uma sociedade civil limitada de propriedade do tradutor público e intérprete comercial Guey Chien, taiuanês radicado em São Paulo que comprou o clube em 1997 e desde então terceiriza o futebol para empresários paulistanos.
Matos foi o último.
Ele e o irmão, o técnico Toninho Matos, foram embora sem deixar saudades, pressionados sem sucesso a pagar as dívidas. ''Disse a eles. 'Ou pagam a dívida ou rescindem o contrato'. Aí, eles se mandaram e levaram até o material esportivo'', conta Soco.
Endividado só na Federação Paranaense de Futebol são R$ 14 mil acumulados de taxas de transferências de jogadores e cachês das arbitragens que não foram pagos , o clube de Rolândia se tornou uma nau à deriva. Acabou sendo socorrido por um grupo de colaboradores, que doaram combustível para as viagens e comida para o alojamento onde moram 19 jogadores, todos jovens e oriundos da Grande São Paulo.
''São bons jogadores. Confio neles. Mas faltava comando'', diagnostica João Batista da Silva, técnico das categorias de base da Secretaria de Esportes que assumiu o comando técnico esta semana.
Sábado, às 15h30, no Estádio dos Pássaros, o Nacional cumpre seu penúltimo compromisso na Segundona, contra o rival Arapongas. ''Temos o objetivo de deixar a última colocação e vamos conseguir'', aposta Soco, sem desanimar.
Em agosto, o time deve ter novo arrendatário, um empresário paulista que não quis revelar o nome. Todo o elenco será dispensado e deverá vir um grupo de juniores da capital paulista, mesclado com uma ''espinha dorsal'' experiente, segundo Soco. ''Desta vez não quero mais passar vergonha'', diz o persistente secretário.


